Um mapeamento feito por médicos e pesquisadores reuniu evidências científicas dos efeitos positivos da cannabis medicinal quando usada no tratamento de 20 quadros de saúde, que vão da anorexia aos sintomas de abstinência de drogas.
Para chegar a essa conclusão, o grupo selecionou 194 estudos de revisão sobre o tema em todo o mundo. A partir desta seleção, foram analisados o nível de confiança e a qualidade das metodologias aplicadas nos estudos, usando critérios internacionais.
O “Mapa de Evidências sobre a Efetividade da Cannabis Medicinal” foi apresentado pela primeira vez na última sexta-feira, 24, em Campinas (SP), no maior congresso de medicina endocanabinoide do mundo. O evento reuniu profissionais de pelo menos 59 especialidades.
Veja, abaixo, os principais pontos abordados no mapeamento:
Efeitos positivos
Considerando apenas 34 artigos classificados com alto nível de qualidade e confiança, foram identificados efeitos positivos ou potencialmente positivos do uso de cannabis medicinal para:
Anorexia
Alívio da dor
Condicionamento físico
Convulsão
Dor crônica
Dor neuropática
Dor oncológica
Epilepsia
Esclerose múltipla
Espasticidade muscular
Função física
Incontinência urinária
Insônia
Noctúria (vontade de urinar frequentemente à noite)
Qualidade do sono
Saúde em geral
Segurança do paciente
Sintomas de abstinência de drogas
Transtornos cognitivos
Transtornos de ansiedade
“Os resultados trazidos pelo mapa são contundentes e apontam a segurança e eficácia dos canabinoides na redução de sintomas e melhora do quadro de saúde para dor crônica, determinados transtornos neuropsiquiátricos e outros problemas de saúde que tanto prejudicam a qualidade de vida das pessoas”, destacou a neurocirurgiã Patricia Montagner, uma das responsáveis pelo projeto.
Efeitos adversos
O levantamento aponta que, do total de 194 artigos revisados, 88 indicaram a presença de efeitos adversos durante o tratamento com a substância, mas de intensidade leve e tolerável.
Além disso, outros 74 deixaram de avaliar a presença de efeitos indesejados e 32 não relataram reflexos negativos.
Países de publicação
Além de reunir as evidências científicas sobre o uso da substância na medicina, o mapeamento também revelou a distribuição geográfica dos estudos disponíveis sobre o tema: a maioria das publicações foi feita nos Estados Unidos, com 55 artigos, e Reino Unido, com 32.
O Brasil, por sua vez, é o sétimo país no ranking de publicações, com oito no total. Em relação ao ano de publicação, o grupo destacou que a maior parte dos artigos foi publicada depois de 2018.
Entenda o mapa
As pesquisas presentes no mapa avaliaram o efeito de 18 tipos de tratamento à base de cannabis para 71 quadros de saúde. Todos os estudos foram publicados a partir de 2001, tendo como público-alvo mais comum pacientes com transtornos mentais/neurológicos e dores crônicas.
Os dados foram coletados até agosto deste ano e devem continuar sendo atualizados pelos próximos cinco anos. O objetivo, segundo os pesquisadores, é criar uma ferramenta de apoio para a tomada de decisões baseadas em evidências científicas.
“Antes da pandemia, quando a gente tinha uma evidência, ela demorava 17 anos para implicar em mudança de política pública. A evidência é o primeiro passo. […] A gente não pode simplesmente esperar, é a nossa responsabilidade. Cada um de nós tem uma responsabilidade de usar a melhor evidência e fazer com que ela seja incorporada para que todas as pessoas possam utilizar”, frisou a professora Mariana Cabral Schveitzer.
Para avaliar a qualidade e confiança dos artigos selecionados, o grupo utilizou a ferramenta AMSTAR 2, que funciona da seguinte forma:
Quem faz a análise dos artigos deve responder “sim”, “não” ou “parcialmente sim” para uma série de perguntas críticas e não críticas;
Com base nas respostas e no resultado alcançado, é estabelecido o nível de confiança da publicação em questão.
Níveis de confiança:
Alto (nenhuma ou uma fraqueza não crítica)
Moderado (nenhuma fraqueza crítica, e mais de uma fraqueza não crítica)
Baixo (uma falha crítica com ou sem pontos fracos não críticos)
Criticamente Baixo (uma falha crítica com ou sem pontos fracos não críticos)
Protocolo (estudo não finalizado)
O Mapa das Evidências foi realizado pela WeCann Academy em parceria com o Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN) e o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME), da Organização Pan-Americana da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS).
(Da Redação com g1 Campinas e Região)






















