Oficial general da Força Aérea Brasileira, o presidente do Superior Tribunal Militar (STM), ministro Francisco Joseli Parente Camelo, derrubou o mito disseminado pela extrema direita brasileira ao declarar que ser de esquerda não tem nada a ver com ser comunista.
E mais: disse que o comunismo acabou com a queda do muro de Berlim, na Alemanha, em 1989, e que a esquerda quer “um Brasil melhor, mais solidário” e “mais próspero”.
Camelo ainda disse que “jamais viu o presidente Lula (PT) como um comunista” e condenou a associação que se faz entre esquerda e comunismo. A declaração foi dada durante entrevista concedida à BandNews TV, nesta quarta-feira (27).

REPERCUSSÃO
Diretor nacional de jornalismo da Band, o jornalista Fernanda Mitre comentou que as declarações do brigadeiro Joseli Camelo, que “fazem todo o sentido, expressam o pensamento dominante no Alto-comando das Forças, que descobriram, faz tempo, que o mundo mudou e a história, como sempre, caminhou”.
Segundo Mitre, Camelo deixou muito brava gente ligada, por exemplo, ao general Braga Netto, investigado como golpista, mas agradou outros militares, de outro sentimento e de outra posição, como o ex-comandante do Exército, Freire Gomes, e o ex-comandante da Aeronáutica, brigadeiro Batista Júnior – dois dos que resistiram ao plano de golpe de Jair Bolsonaro, segundo a Polícia Federal.
Para além disso, o pensamento difundido pela extrema direita bolsonarista brasileira de que todo militar das Forças Armadas é de direita é total falta de conhecimento histórico, reflexo de uma narrativa construída pelos defensores do golpe civil-militar de 1964.
Na entrevista à Band, o brigadeiro Camelo falou sobre o papel do STM, sobre a participação de militares nos atos do 8 de janeiro e sobre o fato de estes militares estarem sendo julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e não pelo STM.
Apesar de dizer que o papel do STM é julgar crimes cometidos por militares, Camelo assegurou que o STF está correto em julgar os militares acusados de participação do 8/1.
DEFESA DA ESQUERDA
Ao fim da entrevista, Camelo foi perguntado sobre o temor de manifestantes do 8/1 a respeito da tomada do Poder por comunistas. Ao responder, o ministro negou a existência do comunismo e defendeu a esquerda.
“Nós vivemos outros tempos. O mundo mudou. Não há mais a divisão… o muro de Berlim já caiu há muito tempo. E, não existe no Brasil essa ideia de que existe o comunismo. O comunismo acabou. Para mim, não existe o comunismo. Outra coisa: o presidente Lula é um sindicalista. Não vejo o presidente Lula, jamais o vi como um comunista. Por que as pessoas têm uma mania de pensar que ser de esquerda é ser comunista? Isso não existe. Ser de esquerda é realmente… ela (a esquerda) quer um Brasil melhor, quer um Brasil mais solidário, um Brasil mais próspero, um Brasil que pense no mais pobre. É tudo isso o que a esquerda pensa. Então, ser se esquerda não é ser comunista”, afirmou o ministro.
Imediatamente, o entrevistador perguntou ao ministro se ele é de esquerda ou de direita. Com ar de riso, o ministro disse que militares não têm partido, e afirmou “querer o melhor para o Brasil”.
“Nós (militares) queremos que a sociedade brasileira viva feliz como sempre foi, e ultimamente vivemos nesse ambiente de ódio. Queremos que a pacificação volte ao nosso país”, concluiu Camelo.
Antes de dar a sua versão sobre o comunismo, o ministro disse ter tido o “privilégio” de pilotar aeronaves para Lula e para a ex-presidente Dilma Rousseff.
Camelo também foi secretário de Coordenação e Acompanhamento de Assuntos Militares do Planalto, cargo que exerceu no Gabinete de Segurança Institucional (GSI), onde atuou de 2003 a 2015.
DESPOLITIZAÇÃO
O presidente do STM é um dos defensores do projeto de lei que visa a despolitizar as Forças Armadas. A proposta estabelece que militares que queiram seguir na vida política e disputar eleições sejam enviados compulsoriamente para a reserva.
Francisco, por outro lado, também repetiu o revisionismo histórico dos bolsonaristas, ao se referir ao golpe civil-militar de 1964 como uma “revolução necessária naquele momento”.
Em 1964, o então presidente João Goulart foi deposto do cargo por tentar avançar com as reformas de base e ser contrário à implementação de medidas liberais que aprofundariam a concentração de renda em prol da modernização da economia, o que justificou a associação das velhas oligarquias aos interesses estadunidenses, com o golpe conhecido, que completa 60 anos no próximo dia 1º de abril.
O presidente do STM alegou que “os militares não devem ter constrangimento com 1964, mas também não há o que comemorar”. “Aquilo aconteceu e a gente não quer que aquilo volte a acontecer. A sociedade brasileira não aceita uma ruptura democrática, temos que trabalhar pela democracia”, finalizou o ministro. (Da Redação com BandNews e Gazeta do Povo)































