As falas do senador Flávio Bolsonaro, num evento nos Estados Unidos, prometendo entregar àquele Governo as terras raras brasileiras, se ele se eleger Presidente, soa como música suave aos ouvidos da Casa Branca.
Afinal, a cobiça estadunidense sobre essa riqueza brasileira é antiga, tem pelo menos 100 anos, e até suscitou um episódio de roubo explícito no litoral do Espírito Santo por pelo menos dez anos.
O roubo aconteceu entre as décadas de 30 e 50 e envolve a empresa Mibra (Monazita Illmenita do Brasil), que operou no Porto de Guarapari entre 1937 e 1947.
A empresa exportava grandes quantidades de areia monazítica, clandestinamente, para os Estados Unidos sob o pretexto de usá-la como “lastro” (peso para equilibrar navios).
Na realidade, a areia era uma fonte rica de tório, monazita e urânio, minerais radioativos utilizados pelos EUA como matéria-prima para pesquisas nucleares e para a fabricação das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.
Estima-se que cerca de 8 mil toneladas foram retiradas em 10 anos. Outros cálculos dão conta de mais de 200 mil toneladas desde que elas foram descobertas, ainda no Século XIX. A exploração só foi interrompida na década de 1950, após denúncias políticas e pressão da imprensa brasileira sobre o saque do patrimônio mineral nacional.
Embora o “saque” histórico em larga escala tenha terminado, o termo ainda surge em contextos atuais.
Em 2020, foram registrados anúncios de venda de garrafas de areia monazítica de Guarapari em sites de e-commerce, o que é proibido por lei.

DESCOBERTA
A alta concentração de minerais pesados, que tornava a areia escura e ideal para lastro, foi notada inicialmente pelo cientista austríaco Carl Auer von Welsbach nos anos 1880, que buscava tório para fabricar camisas de lampiões a gás.
Atualmente, as areias são um marco do turismo em Guarapari, especialmente na Praia da Areia Preta.
Estudos da UFES indicam que a radioatividade em baixas doses pode ter efeitos benéficos contra doenças inflamatórias, mas a extração individual para uso pessoal é desencorajada para preservar o ecossistema.
A exploração de minerais nucleares (como a monazita) é monopólio da União, gerida pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB), e qualquer retirada não autorizada é considerada crime contra o patrimônio público.
GUERRA NUCLEAR
Numa extensa reportagem de setembro de 2021, o jornal A Gazeta traz relevantes informações sobre a chamada “Guerra Nuclear de Guarapari”, utilizando-se de documentos e registros fotográficos da Universidade Federal do Espírito Santo.
O tório virou alvo de cobiça internacional após a descoberta de que poderia ser produzido a partir dele Urânio 233 (U-233), elemento criado em laboratório e usado em reatores ou bombas atômicas.
O governo do Presidente Vargas fez um acordo para enviar aos Estados Unidos a areia monazítica brasileira a preços módicos, como “política da boa vizinhança”. Isso sem contar o quanto foi roubado.
Em 1956, o Congresso Nacional instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as denúncias dos políticos capixabas.
A reportagem, que teve acesso a documentos públicos na Ufes, informa que um só homem foi acusado por grande parte da imprensa brasileira e deputados de ter faturado milhões de dólares em Guarapari com a extração de areia monazítica praticamente de graça, durante quase 30 anos, exportando para diversos países do mundo. Seu nome é Boris Davidovitch.
TAPA NA CARA E CASSAÇÃO

PESQUISAS DA UFES
Após 10 anos de pesquisa nas praias da Areia Preta e de Meaípe, em Guarapari, o professor do Departamento de Física da Ufes, Marcos Tadeu Orlando e a sua equipe apresentaram, em 2017, resultados que apontam para a relação entre a menor incidência de câncer de mama em mulheres no município e as propriedades das areias monazíticas.
Os números comprovam que a cidade tem o menor número de casos de câncer maligno de mama per capita no Estado: em Guarapari, são dois casos a cada 100 mil mulheres; em Colatina, a ocorrência foi de 178 mulheres com a doença a cada 100 mil; em Linhares, o número foi de 148 mulheres. Os dados são do Sistema Único de Saúde (SUS).
“Esta realidade reforça ainda mais a hipótese de que o nível de radiação encontrado nas areias das duas praias, que possuem a mesma quantidade de areias monazíticas, é benéfico à população, em comparação a outras praias do Estado”, disse o professor.
Essas areias são essenciais no tratamento de várias doenças, além da prevenção do câncer de mama, segundo o pesquisador.
“O objetivo principal da nossa pesquisa foi o de conhecer melhor e comprovar a eficiência terapêutica da radioatividade das areias na saúde das pessoas”, ressalta Tadeu Orlando.
O professor Marcos Tadeu destaca ainda que a radioatividade de Guarapari tem como base o elemento tório e não o urânio. Ele lembra também que essa composição da areia foi formada pela própria natureza. “Não temos, então, um acidente provocado pela ação humana”, observa.
As areias pretas são classificadas como monazíticas em alusão à raridade do material. A monazita é um mineral raro que produz gases com o efeito de aliviar dores. Esses gases são encontrados entre os grãos da areia.
Tricorrmat
As pesquisas foram realizadas no Laboratório de Tribologia, Corrosão e Materiais (Tricorrmat), localizado no campus de Goiabeiras, em Vitória, e em uma base científica instalada em Guarapari.
Pesquisadores do Centro de Ciências Agrárias e Engenharias (CCAE) da Ufes, em Alegre, também participaram da pesquisa.
Para coordenar as investigações na base científica foi convidado o geólogo e doutor em Geologia Médica e vice-presidente da Organização Mundial de Termalismo, Fábio Tadeu Lazzerini.
O pesquisador coletou os dados em campo, observando a velocidade do vento, o índice de radiação no ar, o movimento das marés e a estrutura microrgânica das areias (dureza, composição e propriedades físicas).
Para o geólogo, uma exposição de 20 minutos durante 20 dias de radiação, já é suficiente para se verificar os efeitos benéficos na saúde das pessoas, principalmente aquelas que sofrem de problemas respiratórios e dores crônicas.
Guarapari
A cidade se tornou um espaço de referência mundial no tratamento de várias doenças com areias monazíticas. Não é raro ver, na cidade, moradores e turistas passando areia em partes do corpo por acreditarem que trazem benefícios à saúde, principalmente em casos de reumatismo, artrites, nevralgias, mialgias e enfermidades musculares, entre outras.
O professor Tadeu enfatiza que a pesquisa também teve o objetivo de tornar a cidade de Guarapari em um espaço de referência mundial no tratamento com areias monazíticas.
“Guarapari poderá se tornar uma estância radioclimática, ou seja, uma clínica natural ao ar livre, em plena praia, projetando a cidade nacional e internacionalmente como a Cidade Saúde, além de atrair pesquisadores e turistas”, ressalta o professor. (Da Redação com Jorge Lellis/Ufes)



























Gostaria de ver a fala do futuro presidente do Brasil, Flávio Bolsonaro, se comprimento ceder terras raras aos EUA?
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/celso-rocha-de-barros/2026/04/flavio-bolsonaro-quer-comprar-golpe-com-terras-raras.shtml
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/celso-rocha-de-barros/2026/04/flavio-bolsonaro-quer-comprar-golpe-com-terras-raras.shtml