*Marcelo Martins, jornalista
Conheci profissionais que passam pela gente como vento leve, úteis, presentes, mas facilmente substituíveis. E há aqueles que chegam como um sol da manhã, radiante, iluminando tudo ao redor.
Romero Mendonça era um “cabra” assim. Não porque quisesse brilhar, mas justamente porque jamais buscou luz alguma. Ele já a carregava. Um farol de dignidade.
Neste 3 de dezembro, quando a notícia de sua partida atravessou as redações capixabas, foi como se um clarão se apagasse de repente. Ficamos todos um pouco mais escuros, mais silenciosos, mais órfãos.
O Espírito Santo perdeu um repórter-fotográfico. Nós perdemos alguém que fez do cotidiano a vida como ela é, sem toques, nem retoques, que enxergava o mundo com uma honestidade que não se ensina nem nas escolas.
Romero era quase quieto e sério, desses comprometidos com a verdade até o osso. Mas bastava um deslize, um tropeço de quem quer que seja, e lá vinha ele, com sua voz peculiar meio urbana, meio caipira, com uma tirada que desmontava qualquer tensão no carro da reportagem ou na Redação.
Não tinha inimigos, exceto, claro, aquela velha conhecida farda que detestava ser flagrada por suas lentes. As mesmas que não perdoavam brutalidade, covardia ou abuso de poder.
Quem viveu a imprensa capixaba lembra da cena que virou quase lenda: Parque Moscoso, confusão de agentes da prefeitura com ambulantes. PM acionada. E Romero, fazendo o que sempre fez, fotografando tudo.
Quando os cassetetes começaram a falar mais alto que a razão, Romero foi um dos alvos. E, então, aconteceu o improvável, ou talvez, o inevitável para quem conviveu com aquelas figuras.
Nilo Martins e Vladimir Godoy, editores-chefes da Rede Gazeta saindo de um almoço nas proximidades, deram de cara com a cena grotesca e viraram, na hora, dois leões. Não houve comando de redação, pauta, reunião, nada. Houve instinto. Companheirismo. Indignação.
Eles se jogaram para cima dos policiais neutralizando a força bruta como quem defende um irmão. E protegeram. Romero escapou e as imagens que ele captou e o drama que viveu correram o mundo.
Mas Romero não era só o repórter resiliente, o homem do clique perfeito, o combatente das esquinas urbanas e violentas da cidade.
Romero Mendonça, assim como os grandes mestres da arte fotográfica, adorava foto em P&B. “Mais real, né?”, dizia, “sem pose, nem frescuras…”, completava. Essa preferência pela fotografia preto e branco, talvez explique sua paixão desmedida por dois clubes de futebol: o Rio Branco, do Espírito Santo, e o Botafogo do Rio de Janeiro, ambos com camisas preto e branco.
Eu vi, ninguém me contou, Romero cobrindo um clássico capixaba Rio Branco x Desportiva Ferroviária, no estádio do Jardim, em Cariacica. Estava na arquibancada quando o juiz da peleja marcou um pênalti em favor do Rio Branco, time que também torço por razões paternas.
A torcida da Desportiva berrou uníssono: “juiz ladrão, safado, filho de uma égua…”
Romero, então, largou seus equipamentos na lateral do gramado e enfrentou a torcida adversária com os punhos erguidos gritando todos os palavrões que vinha à mente. Que caos! O juiz teve que convidá-lo a sair de campo. E a torcida Capa-Preta, do Rio Branco, eu no meio, agitava: “Fica Romero! Fica Romero!” Saiu sob escolta policial. Só assim!
Era também um militante sindical silencioso, que entendia que a dignidade profissional às vezes exige sacrifício.
Quando o Grupo Nassau ameaçou fechar A Tribuna e a imprensa já sofria seus golpes habituais, Romero e o veterano Chico Flores fizeram o impensável: greve de fome, na porta do jornal. Só água, coragem e teimosia, três elementos que sempre moveram ambos.
A dupla ficou dias ali, firme, mesmo com o corpo enfraquecido e com alguma assistência médica de colegas médicos e também jornalistas.
Romero e Chico suportaram até onde puderam. A greve foi suspensa e a cidade venceu junto. O jornal existe até hoje, porque dois heróis decidiram que não sairiam dali sem lutar pelo que acreditavam.
É difícil aceitar que alguém tão inteiro, tão disposto a doar seu olhar ao mundo, tenha partido. A morte, com sua falta de poesia, não sabe lidar com pessoas que são pura humanidade pra nós pobres mortais. Mas sabemos lembrar sempre nossos aguerridos companheiros honrados.
E agora, quando recordamos o Romero, o que fica não é apenas o fotógrafo premiado, o repórter de coragem insuspeita, o colega gentil, boa praça. Fica o homem de rua, de gente, de olhar clínico na notícia.
Romero Mendonça segue vivo no clarão das imagens que nos legou, nos negativos que nunca se apagam, nas histórias que insistem em permanecer e na memória emocionada que cada um teve a sorte, como eu, de cruzar seu caminho.
Estou muito tristonho pela passagem do meu querido parceiro de tantas reportagens.
Mas, desejo que ele siga iluminando, lá do alto, como sempre iluminou cá embaixo. Adeus, nosso amado Romero Mendonça!























