A pesquisa do Data Favela, publicada pela Folha de São Paulo, pela primeira vez na história mergulhando nas entranhas do movimento do tráfico de drogas nas periferias para, mais do que conhecer, mas revelar à sociedade quem é essa gente de fato, continua em pauta aqui na Tribuna Norte-Leste.
Várias e diversificadas personalidades estão sendo ouvidas pela nossa reportagem para alimentar a reflexão e o debate sobre as informações trazidas pela pesquisa, que ouviu cerca de 4 mil pessoas que trabalham para o movimento em 23 cidades brasileiras.
Na reportagem de hoje, ouvimos dois líderes religiosos, um católico e outro evangélico, sobre o que o conteúdo da pesquisa traz de mensagem para a sociedade. E um deles, o padre Kelder José Brandão Figueira, ordenado em março de 2000 e desde 2017 atuando na Paróquia Santa Teresa de Calcutá, em Itararé, em Vitória (ES), no chamado “Território do Bem”, é contundente em sua fala:
“Quer combater o tráfico de drogas siga o rastro do dinheiro e vá prender os grandes empresários, que estão ganhando muito com isso, vá prender agentes públicos envolvidos com o narcotráfico, com o tráfico de armas. Vá prender aqueles que de fato se beneficiam da morte dessas pessoas que vivem nas periferias”.
Outro líder religioso, o pastor Usiel Carneiro de Souza, que lidera a Igreja da Praia (antiga Igreja Batista da Praia do Canto), também em Vitória, com atuação há 40 anos na periferia de São Pedro por meio de uma fundação da qual é mantenedora, salienta que “vivemos num mundo que criamos em que não cabe todo mundo. Infelizmente, o local de nascimento de uma pessoa, a cor da pele, o gênero, podem ser fatores determinantes em sua história. Em suas chances de vida e realização”.

Para o pastor Usiel, “é fácil dizer que, se a pessoa quiser, ela supera as adversidades. Normalmente quem diz isso é quem sabe muito pouco sobre adversidades. Essa pesquisa revela o que muitos não querem ver: é de todos nós alguma parte na responsabilidade por jovens tornarem-se páreas em nossa sociedade”.
“Enquanto bilhões dos recursos públicos estiverem na conta de ricos em forma de subsídios e renúncias fiscais, enquanto quem ganha menos pagar mais impostos, enquanto políticos enriquecerem pelo uso dos poderes recebidos do povo e políticas sociais forem criticadas e rejeitadas como desnecessárias e criadoras de preguiçosos, nós, cidadãos de bem, seguiremos como exterminadores indiretos de vidas e histórias”, conclui Usiel.
DESCONSTRUÇÃO DE DISCURSOS
O padre Kelder é também coordenador do Vicariato para Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória, criado em 2019 e comenta que a pesquisa do Data Favela “é muito importante porque vem ao encontro da percepção que a gente tem morando na periferia. Eu, por exemplo, moro na periferia há quase 20 anos e trabalho com periferias há mais de 30 anos. Então, ela desconstroi esse discurso belicoso do Estado e dos agentes de segurança pública, que transformam as periferias em território hostil, território inimigo, a pretexto de combater o tráfico de drogas”.
De acordo com padre Kelber, a pesquisa “escancara o erro que o Estado, de uma maneira geral, adota ao investir e tratar a segurança pública como um projeto de guerra ao inimigo comum, que é o traficante, mas o traficante que é preto, pobre, jovem, mora na periferia, e que é tratado como um soldado extremamente treinado como se fosse um inimigo de guerra do Estado, e nisso sobra para todo mundo que vive na periferia. A chacina do Rio de Janeiro, a carnificina que aconteceu no mês passado, é um exemplo crasso dessa situação”.
Outra desconstrução da pesquisa, segundo o pároco de Itararé, é do mito de que o tráfico é dinheiro fácil e que por isso é que as pessoas estão no tráfico.
“Não tem como competir com o movimento do tráfico, isso já ouvi muitas vezes, porque o tráfico paga muito bem, quando a gente sabe que isso não é verdade. O dinheiro que é movimentado nas periferias, nas bocas de fumo, não fica nesses territórios periféricos. Pelo contrário, esse dinheiro é evadido, sai dessas regiões”, disse.
Padre Kelder cita episódio recente da operação policial que chegou aos escritórios da Avenida Brigadeiro Faria Lima, coração financeiro do País, em São Paulo, para enfatizar que, “se o Estado de fato quer combater o tráfico precisa seguir o dinheiro, seguir a trilha deixada pelo dinheiro. E agora isso também está sendo comprovado, quando, por exemplo, se vê a relação da Faria Lima com o PCC em São Paulo”.
O depoimento do padre Kelder traz também uma grave denúncia: “Muitas das vezes, na minha percepção, essa prática adotada pelo Estado está associada até em limpar o território para que uma facção parceira dos agentes de segurança que estão envolvidos no tráfico possa expandir o seu território e ter acesso a determinados territórios que são controlados por facções inimigas. Muitas vezes eu percebo que o Estado trabalha a serviço, sim, das facções”.

De acordo com o padre, a partir daí “se constroi toda uma narrativa desse inimigo comum, desse inimigo que é uma ameça à sociedade e se criminaliza a população territorial inteira, como acontece aqui no Território do Bem, no Bairro da Penha. Então, acho que é uma pesquisa que precisa, sim, ter publicidade e visibilidade e tomara que outros pesquisadores e institutos de pesquisa se debrucem sobre essa temática para ajudar a desconstruir o estereótipo que quem vive na periferia enfrenta todos os dias”.
MITO DO GANHO FÁCIL
Kelder Brandão concorda com a visão da juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, de que o tráfico na periferia é visto por muitos jovens como emprego e não como crime. “E é isso mesmo. A galera, os jovens e adolescentes, não têm acesso ao emprego decente e formal, que promova uma renda necessária para que possa ajudar no sustento da familia. Conheço adolescentes de 13, 14 anos, que trabalhavam para sustentar a família no período de desemprego dos pais e ganhava R$ 400,00 que era menos da metade do salário mínimo. Para ajudar a família, para pagar água, luz, comprar comida, comprar remédio, ajudar no aluguel”.
Segundo o pároco, “é um buraco sem fundo essa situação das pessoas empobrecidas e o Estado, cinicamente, desenvolve uma prática de segurança voltada para atender aos caprichos da classe média e rica, promovendo aquilo que eles chamam de sensação de segurança. A medida não é se toda a população do Estado está sendo protegida, a medida é se os ricos estão se sentindo seguros ou não. A partir daí se estabelece uma prática que não leva em consideração as necessidades das comunidades periféricas, muito pelo contrário, se elegem essas comunidades como inimigas para que, através dessas ações policialescas, violadoras de direitos, homicidas, porque a gente constata isso, muitas vezes o braço armado do Estado executando jovens e adolescentes, para que uma parte determinada da população se sinta segura”.
E o padre conclui: “Isso é cruel, isso é desumano, isso é perverso, isso não tem nada de combate e enfrentamento ao tráfico. Quer combater o tráfico de drogas siga o rasto do dinheiro e vá prender os grandes empresários, que estão ganhando muito com isso, vá prender os agentes públicos que estão envolvidos com o narcotráfico, com o tráfico de armas. Vá prender aqueles que de fato se beneficiam da morte dessas pessoas que vivem nas periferias”. (Da Redação)
(A Tribuna Norte-Leste dará continuidade ao tema com análise da pesquisa Data Favela por cientistas sociais e autoridades nacionais)
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