Li a reportagem sobre a pesquisa do Data Favela e achei muito válidas as opiniões destes traficantes que atuam no operacional/varejo desse sistema econômico paralelo. Baseado na minha experiência profissional e nos meus estudos, continuo acreditando que o ingresso no mundo criminoso é uma escolha econômica racional.
Tem a ver com pobreza? Também, pois locais onde o Estado não é capaz de oferecer uma infraestrutura básica, também não consegue garantir serviços essenciais como a segurança, a garantia do exercício de direitos plenos, nem a aplicação da justiça.
Estes lugares vulneráveis, tendem a deixar lacunas de poder que acabam sendo privatizados na mais pura lógica selvagem. Na Lei da Força. Domina quem tem força, dá segurança, “aplica a justiça”, expande território, faz alianças, diversifica negócios.
O tráfico nessas comunidades oferece oportunidades que o mercado formal não dá, que envolve status social nas comunidades e dinheiro rápido. E no Brasil temos uma cultura consumista de ostentação que contribui para essa pressão na cabeça do jovem. Você vale pelo que faz e pelo que tem.
Quando, ainda, existe uma glamourização do crime e do criminoso, o sistema induz jovens vulneráveis a se espelhar e escolher o ingresso nesse exército de descartáveis. Infelizmente.
Acredito que a mudança se faça com educação, infraestrutura, saúde e oportunidades profissionais, mas sempre esbarramos em algo básico e inicial.
É necessário que todos os lugares vulneráveis e violentos sejam pacificados, que o poder paralelo criminoso seja extirpado, que a segurança e a paz, além de direito, sejam uma realidade. Que a justiça formal seja levada a esses lugares. Só assim poderemos educar nossas crianças, salvar vidas que estariam envolvidas em guerras criminosas privadas, levar infraestrutura e fazer o mercado econômico formal prosperar.
Normalmente, muitos estados esbarram nas ações iniciais da pacificação.
Há 40 meses empreendemos ações e empreitadas em prol da pacificação de Pinheiros e nos outros municípios que compõem a área de circunscrição da 19ª Companhia Independente – Montanha, Mucurici e Ponto Belo.
Pinheiros foi considerado o município mais violento do Espírito Santo e figurou entres os mais violentos do Brasil e das Américas. Tínhamos uma média de 16 homicídios/ano em uma cidade de aproximadamente 25 mil habitantes – taxa de 64 homicídios por 100 mil habitantes. Roubos e furtos nas alturas.
Uma pesquisa que fiz durante o CAO (Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais) em 2024, com dados de crimes de roubo de veículo em 2020, apontou que a probabilidade de você ter seu veículo roubado em Pinheiros era 9 vezes maior que em Vitória e 3 vezes maior que Vila Velha.
Pinheiros era um município que tinha uma relação extremamente elevada de roubos em comparação a furtos. Roubos com emprego de arma de fogo, com violência extrema e grave ameaça. Insegurança urbana e rural generalizada.
Essa realidade começou a ser transformada quando entendemos que, para reverter o quadro, deveríamos atuar de maneira incessante naquilo que alimentava o sistema criminoso de Pinheiros: o tráfico de drogas.
Todo o ecossistema estava interligado. Roubos eram praticados para levantar recursos para os grupos criminosos e os furtos eram praticados por usuários para alimentar o vício ou pagar dívidas.
Analisamos a situação e vislumbramos que deveríamos retomar territórios que estavam sob influência de grupos criminosos. Realizar prisões estratégicas e desmonetizar o sistema.
Em 2021/22 era comum os criminosos andarem armados ostensivamente nas ruas; praticarem ataques em territórios inimigos para demonstrar poder e gerar pânico.
De 2022 para 2023 esse quadro mudou. Reconquistamos territórios para o Estado e a sociedade, levamos indivíduos a responder por seus crimes perante a justiça e integramos as Polícias Militar e Civil local a níveis simbióticos.
Houve contribuição determinante do MP, do Judiciário local, da Prefeitura e papel importantíssimo da comunidade.
O governo do Estado do Espírito Santo fez investimentos vultosos na infraestrutura e a “mágica” aconteceu.
Território pacificado, sistema econômico criminoso local colapsado, desenvolvimento econômico formal em pleno desenvolvimento, valorização imobiliária, etc.
No mês de setembro fizemos várias visitas a empresários que atuam em Pinheiros e eles foram unânimes em apontar a melhoria notória da segurança de Pinheiros e região que atendemos.
O diretor de logística da Simonetti nos relatou que nossa atuação no combate ao tráfico de drogas melhorou a oferta de mão de obra para o mercado formal e aumentou o tempo de permanência no trabalho.
Devo dizer que a criação da 19ª Companhia Independente foi fundamental. Inicialmente, não tínhamos grande efetivo. Para fazer diferente, deveríamos inovar na metodologia de trabalho.
Os resultados começaram a aparecer quando passamos a adotar uma Gestão por Resultados, baseada em análise criminal, para tomar decisões afetas às ações que deveríamos efetuar; e Gestão por Desempenho, para avaliarmos o desempenho da tropa, coletiva e individualmente, e para gerir como o empregaríamos nas atividades de Polícia Ostensiva e Preservação da Ordem Pública. O critério de merecimento profissional teve que ser incentivado, defendido e entrar em nossa cultura organizacional.
O restante são fatos e dados. De uma média de 16 homicídios ano para uma média de 5 nos últimos três anos.
E mais: 84% de redução de roubos e 50% de furtos em relação a antes da criação da Companhia Independente para agora. Mais de 60% de aumento no número de pessoas detidas. Aumento da confiança da população, da sensação de segurança e credibilidade das instituições policiais e órgãos públicos.
Confrontos foram raros, nenhum deles com morte. A ênfase é em pequenas operações rotineiras, até porque grandes operações necessitam de uma logística maior. Os confrontos dentro de todo contexto era exceção, tivemos casos específicos em intervenções mais urgentes.
As pequenas operações aconteciam quando a inteligência apontava que era o melhor momento para efetuar as prisões. Lideranças e membros com algum grau de poder nos grupos criminosos sofrem monitoramento constante.
Tem que escolher o momento adequado para cumprir o mandado de prisão e o flagrante ser bem caracterizado para não dar brechas para solturas breves ou indevidas.
A realização da feira Pinheiros Agroshow foi o evento que consolidou e demonstrou o momento de transformação local.
*Victor Prates é capitão da Polícia Militar, subcomandante da 19ª Companhia Independente
NOTA DA REDAÇÃO: Pinheiros teve redução de homicídios de sete para quatro nos 341 dias de 2025 em relação ao mesmo período de 2024. Esse número projeta uma taxa de 17,23 homicídios/ano por 100 mil habitantes. O Espírito Santo registra, no momento, uma projeção de 19,03 homicídios/ano por 100 mil habitantes.
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