Na noite de 30 de dezembro de 1965 — aos 13 anos de idade e iniciando as entrevistas com muitos negros centenários para escrever os 40 livros da série História dos Quilombolas —, assisti, pela primeira vez, ao ensaio do Baile de Congos, na casa de Acendino dos Santos, em Porto Grande, então “secretário do Rei de Bamba”, que “guerreava”, em memoráveis embaixadas, com Manoel Florentino, conhecido como Cuxi, “secretário do Rei de Congo”.
E, com os primeiros raios do sol desvirginando a alvorada, embarcamos nas canoas a remo e subimos o rio que o gentio chamou de Kiri-Kerê até a localidade de Barreiras para pegarmos a pequena imagem de “São Beneditinho das Piabas” e a levamos em cortejo até Conceição da Barra, para a apresentação do Baile de Congos, na porta da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em frente à Praça Getúlio Vargas.
Agora, 60 anos depois de minha primeira participação na mais tradicional festa dos negros do Cricaré, fiz o mesmo itinerário e, na casa de Aquimimo dos Santos, conhecido como Quino, filho de Acendino — que, na mesma noite, também se despediu da função de “secretário” que havia herdado de seu pai —, encerrei a minha participação no acompanhamento do Ticumbi depois de alguns anos como “vassalo”, maior honraria que recebi em vida!
A foto em destaque é da década de 1970, com os meus principais informantes para escrever a série de 40 livros com base na oralidade, os mestre Zoroastro Valeriano Rodrigues, o “Soberano Imperador da Mauritânia”, e José Antônio Jorge, conhecido como Zé de Ana.
Obrigado, povo devoto, pelos 60 anos de convivência.
*Maciel de Aguiar, escritor
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Nada como um resgate vindo de quem respira o mesmo ar de um tempo passado.