A cidade de Cachoeiro de Itapemirim, a maior do interior do Espírito Santo, com quase 200 mil habitantes, é, das maiores cidades capixabas, na faixa dos 100 mil habitantes ou mais, a que registra o menor índice de homicídios em 2024, finalizado o segundo quadrimestre, tomando-se por base o Painel de Homicídios da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp).
Cachoeiro de Itapemirim registrou, nos oito primeiros meses do ano, 17 mortes deste tipo, projetando um índice de 13,72 homicídios por grupo de 100 mil habitantes para 2024. Na outra ponta, está Linhares, no Norte do Estado, a segunda maior do interior do Espírito Santo, que já registrou neste ano 41 homicídios, uma taxa projetada para o ano de 36,87 homicídios por 100 mil pessoas.
Para se ter uma noção do que isso significa, o último estudo realizado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), baseado em análise em dados de 2021, demonstrou que a Jamaica, país mais violento do mundo, teve taxa de 52,13 homicídios por 100 mil habitantes. No Espírito Santo, dois municípios (Ecoporanga com 82) e Conceição da Barra com 65,55) superaram a Jamaica até agora em 2024.
CONCENTRAÇÃO
Em regra, os maiores índices de homicídios estão concentrados na porção ao Norte da Grande Vitória. E aumentam na medida em que se aproxima do extremo Norte, próximo às divisas com o Sul da Bahia.
Cientista social, o professor João Gualberto Vasconcellos faz uma leitura histórica da cultura de violência do Norte do Estado em contraste com o Sul do Espírito Santo, que detém os menores índices de homicídios, seja em números absolutos, seja em valores relativos.
“O Espírito Santo tem duas regiões de desenvolvimento no tempo muito diferenciadas: as regiões Sul e Central, onde tudo começou, e a região Norte, de uma ocupação mais recente. A Província do Espírito Santo, no século XIX, quando o café nos alavancou para um outro estágio, foi construída no vale do Itapemirim. A primeira ferrovia do Estado foi inaugurada em 1887, no finalzinho do século, pegava de Cachoeiro a Castelo, e depois o ramal que levava para Alegre, Guaçuí e Minas Gerais. Era uma civilização que já se implantava, fazendas escravocratas que impulsionavam esse desenvolvimento por meio do café”, disse Gualberto.
O cientista registra que na Fazenda Monte Líbano, em Cachoeiro de Itapemirim, nasceram dois presidentes do Estado, os irmãos Bernardino e Jerônimo Monteiro, um clã familiar que dominou a política do Espírito Santo na primeira República: “Esse desenvolvimento depois vem para Vitória, por ser a capital do Estado, com Jerônimo e com Florentino Avidos, que era cunhado dele e de Bernardino, e que moderniza a capital no início do século XX. Enquanto tudo isso estava acontecendo, toda a região entre o rio Doce e o Sul da Bahia estava debaixo de mata. Em meados dos anos 40 e 50, começa a ser desbravada pelo plantio do café. Arrancava-se as florestas para plantar café. Colatina foi o maior produtor de café do mundo”.

O desbravamento, derrubando as matas com os machados dos capixabas para plantar café, avança pelo Noroeste na região do Contestado. “É um processo de ocupação muito diferente, com uma produção cafeeira de meeiros e pequenos proprietários, em terras devolutas, de propriedade confusa. Uma região que foi palco de uma grande revolta em Ecoporanga, que está registrado no livro chamado Cotaxé, onde eles enfrentaram as tropas da Polícia Militar. Depois, naquela história de conflitos de divisas entre os Estados, somente em 1963 o governador Francisco Lacerda de Aguiar vai assinar com Magalhães Pinto o acordo de limites entre os dois Estado”.
Para o professor, é um período, historicamente, muito recente: “Li recentemente um livro muito interessante, Bangue Bangue do Café, de Ezequiel Ronchi Neto, em que, por meio de contos, ele narra como nos anos 50 essa região é dominada pelos crimes de mando, pela solução de conflitos pela eliminação física de seus adversários, na bala. Isso desapareceu nos anos 60 com a erradicação dos cafezais, mas essa cultura da violência faz parte dessa região. Então, essa diferença entre municípios do Norte e do sul é a diferença de processos sociais distintos. A colonização do vale do Rio Doce é muito violenta, a Polícia Militar espalhava a violência por ali. Isso fica. No Sul do Estado é muito diferente, a violência menos intensa”.

DISPARIDADES
Outro especialista ouvido pela Tribuna Norte-Leste conheceu de perto a realidade descrita por João Gualberto: é o sociólogo Erly dos Anjos, que destaca as disparidades verificadas na estatísticas, o contraste entre Águia Branca, com sua tradicional colonização polonesa, há mais de dois anos sem registros de
homicídios, e, do outro lado, Ecoporanga com índice projetado de 82 homicídios por 100 mil habitantes, o mais alto do Espírito Santo, com a média de 22,5 homicídios por 100 mil habitantes. Ele salientta que, “igualmente interessante é o fato de Conceição da Barra, último balneário capixaba antes do Sul da Bahia” ter índice de 65,5 homicídios por grupo de 100 mil habitantes em 2024.
“Isso nos leva a crer que as disparidades entre os índices da violência não podem ser compreendidas sem considerar seus contextos históricos, ou fatores que incidem na produção e reprodução das comunidades no presente. Uma tradicional colonização polonesa não significa a superioridade racial de um povo sobre outros. Significa que um pacto de cooperação social e resolução de conflitos vêm sendo construído no seio das relações sociais, entre as famílias e outras instituições, que inibem as desavenças diárias e intensificam estes laços. Possivelmente a estrutura agrária de pequenas e médias propriedades rurais intensificaram este pacto de bem comum. O mesmo não ocorre em áreas de grandes latifúndios de terras invadidas e griladas por poucos em desigualdade com uma maioria sem terras e meios de sua sobrevivência. Tudo isso forma um caldo para a desigualdade estrutural e conflitos cotidianos e permanentes”, enfatiza Erly.
Professor aposentado da Ufes, Erly dos Anjos afirma ser “de suma importância fazer um diagnóstico localizado, conhecer as características de suas trajetórias para desvendar as motivações e tendências dos homicídios e traçar planos de mitigação para um curto, médio e longo prazos. As comparações dos diferentes índices e regiões permitem a elaboração de um plano de segurança sustentável e resiliente”.

HOMICÍDIOS PELO MUNDO
O Estudo Global Sobre Homicídios mais recente, divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em dezembro de 2023, apontou que mais pessoas morreram por homicídio entre 2019 e 2021 do que em conflitos armados ou atos terroristas combinados.
O relatório também aponta que, embora a magnitude da violência por homicídios possa ser mais fácil de conceber em números absolutos, é importante examinar a taxa de homicídios por habitantes de cada local, já que ela é mais adequada para captar o risco relativo de alguém ser vítima de homicídio em uma região específica. Em 2021, a taxa global de homicídios foi de 5,8 a cada 100 mil pessoas.
Em 2021, a taxa global de homicídios foi de 5,8 por 100 mil pessoas. Entre os países, a Jamaica registrou a maior taxa de homicídios em 2021, com 52,13 por 100 mil habitantes, seguida pela África do Sul (42,40) e por Santa Lúcia (38,96). Já o Brasil aparece em 14º lugar na lista, com 21,26 homicídios a cada 100 mil habitantes.
Em relação às taxas de homicídio por habitantes, as Américas ocupam o primeiro lugar, com 15 homicídios por 100 mil habitantes, seguidas pela África (12,7), Oceania (2,9), Ásia (2,3) e Europa (2,2). (Por José Caldas da Costa, da Redação)






















