José Caldas da Costa*
De um lado, a Petrocity Ferrovias; do outro, a Macro Desenvolvimento. As duas empresas entram numa disputa sem brigas para concretizarem projetos de ferrovias que têm um mesmo objetivo, chegar ao Brasil Central, mas com destinos diferentes: uma, para o futuro Centro Portuário de São Mateus, no Norte do Estado, e a outra para o projeto Porto Central, em Presidente Kennedy, no extremo Sul capixaba.
As duas estão tendo projetos com “compatibilidade locacional” aprovados simultaneamente. Os mais recentes na sessão da última quinta-feira, 16, da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), quando o Espírito Santo foi, direta ou indiretamente, beneficiado por dois dos quatro projetos:
– São Mateus (ES) – Ipatinga (MG) : 420 km de extensão – Petrocity;
– Três Lagoas/MS – Aparecida do Taboado/MS: 89 km de extensão – Eldorado Brasil Celulose;
– Guarapuava (PR) – Paranaguá (PR): 405 km de extensão – Ferroeste;
– Sete Lagoas (MG) – Anápolis (GO): 716 KM de extensão – Macro Desenvolvimento Ltda.
O projeto da Macro Desenvolvimento está interligado a um outro, de Sete Lagoas (MG) a Conceição do Mato Dentro (MG) e daí a Presidente Kennedy. Por outro lado, a Estrada de Ferro Minas-Espírito Santo (EFMES) faz parte de um conjunto de quatro projetos da Petrocity Ferrovias e visa a ligar a região industrial do Vale do Aço mineiro ao porto de São Mateus, tolizando mais de 2 mil km de linhas férreas com.
Completando o complexo logístico, a Petrocity já tem contrato de autorização assinado com o Ministério da Infraestrutura para construir 1.102km da Estrada de Ferro Juscelino Kubitschek (EF 030), ligando Barra de São Francisco, maior produtor nacional de rochas ornamentais, a Brasília.
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A Ferrovia JK, porém, terá conexão com outra da Petrocity, de Unaí (MG) a Campos Verdes (GO), a Estrada de Ferro Planalto Central, que terá um ramal de 50km de Corumbá de Goiás a Anápolis. Esses dois projetos (Unaí-Campos Verde e Corumbá de Goiás-Anápolis) deverão ser os próximos a ter compatibilidade locacional aprovada pela ANTT. Ou seja, a JK permitirá acesso tanto a Brasília, quanto ao cerrado brasileiro e ao maior centro de distribuição do interior de Goiás: Anápolis.
As cargas procedentes dessas regiões correrão pela JK até Barra de São Francisco, onde uma Unidade de Transbordo e Armazenagem de Cargas (UTAC) permitirá a transferência de vagões para a Estrada de Ferro Minas-Espírito Santo (EFMES), chegando ao porto de Urussuquara, em São Mateus, o único do Sudeste incluído na área da Sudene. A mesma transferência ocorrerá da Planalto Central para a JK, em Unaí (MG).
Ou seja, enquanto dois grupos empresariais desenvolvem projetos audaciosos no escopo do novo Marco Legal das Ferrovias, aprovado esta semana na Câmara dos Deputados e à espera de sanção presidencial, quem mais ganha com isso é o Espírito Santo, que deixará de ficar dependente de uma única ferrovia – a Vitória-Minas, monopolizada pelas cargas da Vale – para contar com dois outros megaprojetos para se consolidar, definitivamente, como centro de excelência logística.
Ao poder público, como agente fomentador do desenvolvimento econômico e social, resta tão somente estender o tapete vermelho para iniciativas por conta e risco da iniciativa privada. Afinal, elas farão o dinheiro circular e gerar riquezas sobre riquezas.
A pergunta “onde está o dinheiro” é bem anacrônica. Como costumam dizer os economistas, o dinheiro não some, apenas troca de mãos. No capitalismo, o dinheiro está onde possa se multiplicar. Henry Ford construiu sua fama com credibilidade e dinheiro dos outros. Bons projetos atraem o capital, e fundos internacionais estão procurando boas oportunidades, onde haja segurança jurídica e política.
O novo programa ferroviário nacional precisa ser assumido por todos os candidatos à Presidência da República em 2022 como um programa de Estado e não como um programa de Governo. Afinal, não cabe na cabeça de ninguém um País continental, com uma orla litorânea de 7,5 mil quilômetros como o nosso, sem uma grande malha ferroviária e sem transporte de cabotagem.
*José Caldas da Costa é jornalista, escritor, geógrafo e diretor/colaborador do site tribunanorteleste.com.br

























