A pedido da Tribuna Norte-Leste, o delegado federal de carreira Álvaro Duboc, diligente secretário de Estado de Planejamento e Orçamento, produziu uma análise da pesquisa do Instituto Data Favela, publicada originalmente pela Folha de São Paulo.
Coordenador do Programa Estado Presente em Defesa da Vida, Álvaro Duboc avaliou a política capixaba de segurança à luz dos dados da pesquisa, que se utilizou de pesquisadores das próprias comunidades e conseguiu ouvir quase 4 mil pessoas que “trabalham para o tráfico” em 23 estados.
Com essa participação de Duboc, a Tribuna Norte-Leste conclui a proposta de manter o tema em debate, como fez ao longo dos últimos dias, ouvindo especialista com o próprio de trazer o tema à reflexão da sociedade capixaba.
Vejamos a análise do secretário Álvaro Duboc:
“O levantamento do Data Favela reforça algo que gestores públicos e pesquisadores sérios já conhecem: a necessidade econômica é um importante fator de atração para o crime, especialmente entre jovens em territórios vulneráveis.
Mas é fundamental fazer uma ressalva inicial. A violência é um fenômeno multicausal. Não há uma única variável capaz de explicá-la ou resolvê-la isoladamente.
Reduções sustentáveis dos indicadores de violência exigem políticas públicas que combinem repressão qualificada, prevenção social e enfrentamento das desigualdades estruturais.
Foi com essa compreensão que, em 2011, o governador Renato Casagrande implantou o Programa Estado Presente.
Buscamos, à época, o que havia de mais consistente na literatura nacional e internacional: fortalecer o sistema de segurança e de aplicação da lei para reduzir a impunidade, ao mesmo tempo em que enfrentávamos as condicionantes estruturantes da violência. Essa visão se materializou em dois eixos complementares e indissociáveis: proteção policial e proteção social.
Quando falamos em ampliar oportunidades para jovens das periferias, é imprescindível envolver a política educacional. O primeiro grande desafio é reduzir a evasão escolar e a distorção idade-série, fatores fortemente associados à vulnerabilidade social e à entrada precoce no mundo do crime.
Entre 2011 e 2014, implementamos uma estratégia inovadora com os chamados coordenadores de pais, inspirada em experiências internacionais, especialmente de Nova Iorque, no âmbito do programa conduzido por Rodolfo Giuliani.
A lógica era simples e poderosa: inserir lideranças positivas da própria comunidade para atuar junto à direção das escolas, identificando precocemente sinais de evasão e realizando busca ativa dos estudantes.
Essa experiência evoluiu e deu origem ao Agente de Integração Escolar, fortalecendo o vínculo entre escola, família e território.
Paralelamente, avançamos na implantação das escolas em tempo integral, ampliando o tempo de permanência dos jovens em ambientes seguros e protegidos, ao mesmo tempo em que qualificamos o processo pedagógico, desenvolvemos habilidades, identificamos vocações e ampliamos horizontes de futuro.
Hoje, o Espírito Santo conta com 234 escolas de tempo integral, com prioridade para unidades que atendem jovens de comunidades mais vulneráveis à violência.
Essa estratégia se completa com políticas de qualificação profissional e inclusão produtiva, como o Qualificar ES, e com os Centros de Referência das Juventudes (CRJs), que oferecem formação, cultura, esporte, cidadania e apoio psicossocial.
São políticas que dialogam diretamente com o achado da pesquisa do Data Favela: o jovem não escolhe o crime por vocação, mas muitas vezes por falta de alternativas concretas.
Em síntese, enfrentar a violência exige um olhar mais amplo, integrado e responsável. Reprimir o crime é necessário, mas insuficiente. Oferecer oportunidades, fortalecer a escola, reduzir desigualdades e construir trajetórias de futuro é o caminho para resultados duradouros.
A experiência capixaba mostra que, quando o Estado atua de forma coordenada, consistente e baseada em evidências, é possível salvar vidas e transformar realidades.”
Veja abaixo os números da série histórica de homicídios no Espírito Santo e a redução de homicídios obtida com a implementação do Programa Estado Presente. O pico de 2017 ocorre em função da crise da segurança, que teve como ápice a greve da Polícia Militar em fevereiro daquele ano, co 211 homicídios em apenas um mês. (Da Redação)
Data Favela: ex-secretário nacional de segurança analisa dados sobre jovens no tráfico



























