*José Caldas da Costa
Penso, logo existo. Assim, René Descartes começa a promover uma certa transição do pensamento medieval para o científico a partir do Século XVII. “Discurso do Método”, livro de Descartes, teve esse papel para a sociedade do conhecimento.
Mas, em meio a essa impressionante evolução científica, a sociedade criou seus próprios monstros. Talvez a explosão tecnológica da última virada do século seja um desses monstros indecifráveis e que ameaçam devorar nossa sociedade.
Yuval Harari traz uma visão histórica desse processo em sua trilogia “Sapiens”, “Homo Deus” e “Nexus”. Mas esse processo gerou algo curioso: saímos de uma era de muita negatividade para outra de extrema positividade. E o pensamento crítico é substituído por gurus e suas palavras de ordem.
Quem nunca disse “estou cansado”? Com tenta tecnologia que deveria libertar nossa mente para criar no ócio, como defendeu Domenico De Masi na virada do século, parece que viramos pessoas escravizadas pela nova ordem de alta competitividade.
É aí que entra o filósofo sul-coreano Byung-Chu Han, há quase cinco décadas vivendo no Ocidente, com uma trilogia que discute nossa sociedade do cansaço, com seus likes paliativos e sua crise narrativa.
Aliás, voltando a Yuval Harari, o historiador israelense nos traz que o domínio da narrativa foi o marco da sapiência.
Em “Sociedade do Cansaço”, Byung-Chul Han descreve de forma sucinta e precisa uma mudança de paradigma decisiva: a sociedade da negatividade dá lugar a uma sociedade dominada por um excesso de positividade.
Com base nisso, o autor desenha o panorama patológico da sociedade atual, que inclui doenças neurais como depressão, transtorno de déficit de atenção e esgotamento.
Não são infecções, mas infartos, que não são causados pela negatividade do outro imunológico, mas por excesso de positividade. Isto significa que eles escapam a qualquer tecnologia imunológica para profilaxia e defesa.
A análise do autor conduz a uma visão de uma sociedade que ele chama, com intencional ambivalência, de sociedade cansada.
A sociedade disciplinar e repressora do século XX descrita por Michel Foucault perde espaço para uma nova forma de organização coercitiva: a violência neuronal, segundo Han.
As pessoas se cobram cada vez mais para apresentar resultados – tornando elas mesmas vigilantes e carrascas de suas ações.
Em uma época onde poderíamos trabalhar menos e ganhar mais, a ideologia da positividade opera uma inversão perversa: nos submetemos a trabalhar mais e a receber menos.
Essa onda do ‘eu consigo’ e do ‘yes, we can’ tem gerado um aumento significativo de doenças como depressão, transtornos de personalidade, síndromes como hiperatividade e burnout. Este livro transcende o campo filosófico.
Em “A crise da narração” o autor mostra os efeitos de um mundo saturado de informações fragmentadas.
Com uma análise aguda e perspicaz, Han examina como a sociedade contemporânea está perdendo a capacidade de criar e apreciar narrativas significativas.
Explorando os impactos desse fenômeno na cultura, na política e na tecnologia, ele revela os desafios e as consequências da era pós-narrativa.
“A sociedade paliativa” é uma sociedade do curtir. Ela degenera em uma mania de curtição.
O like é o signo, o analgésico do presente. Ele domina não apenas as mídias sociais, mas todas as esferas da cultura. Nada deve provocar dor.
Não apenas a arte, mas também a própria vida tem de ser instagramável; ou seja, livre de ângulos e cantos, de conflitos e contradições que poderiam provocar dor. Esquece-se que a dor purifica. Falta, à cultura da curtição, a possibilidade da catarse.
Enfim, para quem quer fugir da frugalidade, as obras de Byung-Chul Han podem ajudar muito. E nem precisa dar um like. (Do autor com apoio de conteúdos da Amazon)























