Faltavam apenas 53 dias para dona Maria Rita Pereira, a mulher mais idosa, de Barra de São Francisco e Espírito Santo e provavelmente a terceira mais idosa do Brasil chegasse aos 117 anos. Mas, quis o destino que ela se despedisse desse mundo, de morte natural, nesta quinta-feira, 23, apenas quatro meses após a morte de sua última filha que ainda vivia, Zenilda Rita de Jesus, a dona Santa, 74 anos.
O velório começa às 7h da manhã, na capela mortuária e o sepultamento está previsto para as 16h, no cemitério do bairro Irmãos Fernandes.
‘Descoberta’ pelo tribunanorteleste.com.br por meio do ex-prefeito Alencar Marim, logo no primeiro ano do seu mandato, dona Maria Rita Pereira foi objeto de muitas reportagens ao longo dos últimos seis anos, inclusive nos veículos de comunicação da capital capixaba.
Na manhã desta sexta-feira, o prefeito Enivaldo dos Anjos, que havia determinado ao Projeto Avivar que dedicasse toda a atenção possível à anciã, lamentou a passagem e destacou que o município procurou dar a ela tudo que fosse necessário em sua caminhada ao encontro do Criador.
“Perdemos uma referência em longevidade”, lamentou, destacando que em sua gestão, os idosos são prioridade desde o início, com um programa de atenção integral (Projeto Avivar) que procura cuidar da saúde física e mental dos idosos do município.
Dona Maria Rita Pereira recebeu, este ano o título de Cidadã Francisquense, em projeto de autoria do presidente da Câmara Municipal, vereador Lemão Vitorino.
Apesar da longevidade, nos últimos meses, dona Maria Rita Pereira vivia praticamente o dia todo deitada em uma cama, quase não falava, ouvia pouco e não estava mais se alimentando direito, exceto quando chegava uma carga de produtos Herbalife, alimento ao qual se adaptou e que era cedido graciosamente pelo diretor geral do TNL, jornalista José Caldas da Costa, que a conheceu ainda ativa e chegou até a dançar um forró com ela, há dois anos.
“Agradeço a Deus pela inexplicável oportunidade de conhecer dona Rita ainda ativa e poder ajudar a alimentá-la nos últimos anos. Mas, depois da morte da última filha, as coisas para ela estavam muito mais difíceis… enquanto esteve ativa, sua alegria era contagiante. Na última vez que a visitei, ela, mesmo acamada, segurou em minha mão e a balançou no ritmo da música que gostava de cantar e dançar. Desde que a conheci, ela perguntava à dona Zanilda: “Cadê meu filho?”… a vida nos prega peças…”, disse Caldas.
A última vez que dona Maria Rita saiu de casa, foi em junho do ano passado, quando a filha dona Santa resolveu fazer o batismo da mãe por acreditar que essa é uma condição para entrar no Reino de Deus.
“Minha mãe está muito fraquinha, já quase não ouve e não enxerga direito. Acredito que ela ainda vai viver muito tempo, mas aproveitamos a oportunidade da visita do pastor Amilton Bento (líder da congregação em Nova Almeida, na Serra), para batizá-la, disse dona Santa na altura.
Infarto leva última filha viva da anciã Maria Rita Pereira, de 116 anos
História de dona Maria Rita
Dona Maria Rita Pereira nasceu na região do Contestado, em 15 de janeiro de 1907, no município hoje conhecido por Mutum (MG). Maria Rita veio, inicialmente para a região Leste de Minas, ainda bem jovem, montada em lombo de burros ou mulas, únicos meios de transporte de alimentos e outras provisões daquele tempo e morou por vários anos em São João do Manteninha (MG).
As tropas saíam da região de São Manoel do Mutum em direção ao “norte”, como era chamado o promissor Patrimônio de São Sebastião (hoje Barra de São Francisco), subindo pelo rio José Pedro, até alcançar o rio Manhuaçu, onde atravessavam o rio Doce, em balsas, e seguiam por Baixo Guandu e Pancas, ou mesmo por Resplendor até alcançarem a região.
Ela também viveu em Ecoporanga durante um tempo e, pelos cálculos da filha Zenilda, a dona Santa, vivia em Barra de São Francisco há cerca de 37 anos.
Única filha viva, dona Santa exibe foto da mãe com o pai, Raimundo José Pereira (Foto: Weber Andrade)
Casou-se com 25 anos de idade, ainda em Mutum (MG). A idade do primeiro casamento é calculada com base na idade da filha mais velha, Maria Pereira da Silva, que, se viva fosse, estaria com 86 anos. Depois dessa, vieram Ozias, que morreu aos 7 anos de idade, José Raimundo, que teria 84 anos, Zenilda Rita de Jesus, a dona Santa, única viva, com 71 anos, e Zenildo, que teria 69 anos. Este, ficou 30 anos sumido para Rondônia, até o reencontro com a família, pouco antes de morrer.
O primeiro esposo chamava-se Raimundo José Pereira, que é o pai de todos os filhos dela. Depois que este morreu, coincidentemente, casou-se com outro Raimundo José Pereira, mas ficou viúva novamente, depois que este foi envenenado.
Entre os dois Raimundos, ainda teve outro marido, que chamava-se Albertino e morreu com 76 anos. O último marido o outro Raimundo José Pereira, que tinha o mesmo nome do primeiro, morreu aos 70 anos, quando dona Rita já tinha 98.
Em entrevista no início deste ano, a neta Rosineia, filha de dona Santa, contava: “Se a gente deixasse, ela teria arrumado outro”.
O pai de Santa, o primeiro Raimundo José, morreu com 45 anos e o segundo marido, Albertino, morreu com 76.
Hoje ela tem cerca de 100 descendentes, em seis gerações, a maioria deles radicada no Mato Grosso e Rondônia, além do Paraná.
Sem ter estudado, dona Maria Rita criou todos os filhos na roça, trabalhando em serviços como capina, plantio de fumo – o pai era produtor de fumo – e ajudando os pais nos afazeres domésticos.
Dona Maria Rita Pereira assumiu a liderança de pessoa mais velha do Espírito Santo com a morte de Esberta Evangelista dos Santos, a dona Caçula, em São Mateus, onde nasceu e viveu. Dona Caçula já estava muito debilitada, em cima de uma cama, como registrou o jornal local Tribuna do Cricaré. De acordo com o historiador Eliezer Nardoto, “dona Caçula morreu há seis meses”, pouco depois de completar 115 anos no dia 18 de janeiro de 2020.
(Weber Andrade com José Caldas da Costa)






































