Weber Andrade
Em viagem pela região de divisa entre os Estados do Espírito Santo e Minas Gerais, no último final de semana, não pude deixar de perceber, no perímetro urbano de Colatina, maior cidade do Noroeste capixaba, os enormes bancos de areia que se formam no leito do rio Doce. Na verdade, eles prosseguem até bem perto da foz, com um volume de água bem abaixo do que se via há 20, 30 anos.
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A Usina Hidrelétrica Eliezer Batista, que fica logo acima da sede do município de Aimorés, em Minas Gerais e, um pouco antes dela, já em Baixo Guandu, a de Mascarenhas têm impedido a vazão das águas e, nesse período de seca a situação fica desoladora.
“Por aqui passava um rio, a gente chegava na beira do ‘cais’ e podia pescar em qualquer época. Agora, como o senhor pode ver, o leito do rio está virando mata, já tem fruteiras e até gameleiras grandes dentro do espaço onde antes passava água”, comenta o pescador Maurício Viana, que atualmente vive em Governador Valadares, mas visita Aimorés e região com frequência.
A situação do rio em Aimorés contrasta fortemente com a que podemos verificar a partir da barragem da usina de Aimorés, que inundou cerca de 30 km², com o espelho d’água chegando bem perto da sede do município de Resplendor.
Dali para cima a situação do rio em relação ao volume de água muda totalmente e, até em Governador Valadares, maior cidade do Leste Mineiro banhada pelo Doce. Ali o volume de água é bem grande e, mesmo depois do crime ambiental da Samarco e Vale, em 2015, quando milhões de metros cúbicos de rejeitos percorreram e destruíram quase toda a vida do rio, ás águas parecem limpas.
“Engana-se quem pensa que dá pra consumir esses peixes, conta outro pescador, o Kaká, que já viveu da pesca em Governador Valadares.
“Agora, já tem peixe, principalmente o bagre africano e as tilápias, que são bastante resistentes, mas eu não tenho mais coragem de pescar e nem de consumir pescado do rio Doce”, lamenta ele.
A tendência é que o acúmulo de areia no Rio Doce aumente pela falta de chuva ao longo da
bacia. Os levantamentos meteorológicos indicam que o período mais crítico vai até setembro,
segundo o meteorologista do Incaper, Hugo Ramos. “Nos últimos anos tivemos períodos seca
que mantiveram o padrão do rio mais assoreado. E a pressão da população para o uso da água
contribui para essa manutenção mínima de quantidade de água e para o desenvolvimento de
bancos de areia.
Enquanto sobrevive, mesmo com tantas dificuldades, sempre é tempo de pensar em ações para
a saúde do rio, tão importante para a vida de moradores do Norte e Noroeste do Espírito Santo.
Recuperação do curso d’água e do solo
Em nota, a Fundação Renova informou ter realizado um estudo ambiental que analisou as
características hidrossedimentológicas do trecho da bacia do rio Doce atingido pelo rompimento
da barragem de Fundão.
O objetivo, segundo a Renova, foi entender o comportamento dos processos relacionados à
dinâmica da água e dos sedimentos. Por meio de modelagem matemática, também foi
analisada a interação do ambiente com o rejeito ao longo dos anos. Segundo o estudo, até
2019 houve uma redução estimada em 34% no volume de rejeitos no leito do rio após o
rompimento, o que significa a confirmação da tendência de retorno aos padrões registrados no
período anterior ao desastre.
Atualmente, os valores de transporte de sedimentos no rio Doce, no trecho entre a Usina
Hidrelétrica Risoleta Neves (Candonga) até a foz, no Espírito Santo, já se aproximaram dos
valores históricos. Estes índices são medidos pela Agência Nacional de Águas e Saneamento
Básico (ANA) em sua rede hidrometeorológica e são comparados com dados de antes do
rompimento.
A comparação da situação atual com os registros históricos evidencia uma clara recuperação
dos trechos afetados. A pesquisa também aponta que, ao longo dos anos simulados, grande
parte dos rejeitos tendem a se consolidar ao longo do tempo a partir das ações da reparação da
Fundação Renova, de crescimento da vegetação das margens e do próprio equilíbrio natural do
leito dos rios afetados, com a formação de camadas mais grosseiras (areia, cascalho etc) dos
sedimentos naturais.
O estudo hidrossedimentológico é objeto de discussão judicial no âmbito da 4ª Vara Federal e
há previsão de atualização dos resultados.
Sobre a qualidade da água, a Fundação salientou que o monitoramento hídrico da bacia do rio
Doce demonstra que a qualidade da água retornou aos parâmetros similares aos anteriores ao
rompimento da barragem de Fundão. O Rio Doce é enquadrado na classe 2 pela legislação
brasileira e sua água pode ser consumida pela população após tratamento convencional nos
sistemas públicos de abastecimento, bem como ser usada para dessedentação animal e
irrigação, entre outros usos previstos na legislação.








































