A pesquisa do Data Favela, publicada pela Folha de São Paulo, que pela primeira vez ouviu pessoas da periferia de 23 cidades brasileiras que trabalham para o movimento do tráfico de drogas, foi analisada e validada por dois importantes sociólogos capixabas.
Os professores Erly Euzébio dos Anjos e João Gualberto Vasconcelos relevaram o prejuízo do caráter científico da pesquisa, salientado pela própria Folha de São Paulo, por não se saber quantas pessoas, efetivamente, trabalham para o tráfico de drogas, até em função de ser uma atividade à margem da lei, ou seja, ilegal e passível de punição. A pesuisa ouviu quase 4 mil pessoas.

O sociólogo Erly dos Anjos, professor emérito da Ufes e cujos estudos de doutorado concentram-se na violência rural e urbana, considerou a pesquisa do Data Favela “inédita e importantíssima devido à exuberante amostragem e o uso inteligente de pesquisadores locais e com acesso privilegiado”.
Na avaliação de Erly, a pesquisa “desnuda uma realidade já conhecida em estudos acadêmicos e comprova que a máquina de moer jovens continua. Comprova que quem cai na moenda tem pouca chance de se safar. Que as políticas públicas ignoradas pelos governantes de direita e esquerda não são eficazes para resgatar gerações deste buraco negro social: nosso grande desafio”.

PESO ECONÔMICO
Outro cientista social e político, João Gualberto Vasconcelos considera que a pesquisa traça um perfil do trabalho do tráfico nas favelas brasileiras E mostra que “essas pessoas não podem ser consideradas, como gosta de fazer a mídia de extrema direita, bandidos pura e simplesmente. São trabalhadores do tráfico, fazem atividades ilícitas, que tem que ser desestimulados”.
Gualberto enfazia que “obviamente, as autoridades policiais têm que tomar todas as medidas, mas nós, como sociedade, temos que analisar isso com muito cuidado. As pessoas têm duplo trabalho. Boa parte ali fala que está no mercado de trabalho informal. Quem são essas pessoas? São os encanadores, os eletricistas, os borracheiros, enfim, são as atividades que esses setores fazem em sua maioria”.
“Então, não são pessoas perigosas a ponto de não poder circular. Elas estão envolvidas com atividade perigosa. Nós temos que entender que o tráfico é uma coisa muito importante na construção da renda das favelas brasileiras. Se não fosse o tráfico, a maioria dessas pessoas estaria entregue a uma condição de miséria digna de países ainda mais problemáticos do que o Brasil. Então, é fonte de renda, é fonte de estabilidade, de um conjunto de coisas ao mesmo tempo em que é fonte de coisas muito ruins”, disse Gualberto.
O cientista político citou que o sociólogo capixaba Michel Bisse, que fez carreira no Rio de Janeiro (falecido em agosto deste ano), chamava muito a atenção para o fato de o foco ser sempre a oferta nesse mercado das drogas: “Só morre menino e não muda a oferta. E quem consome essas drogas? Não está todo mundo na favela. O consumo de drogas como cocaína está fartamente localizado nos setores de classe média e classe média alta, nos bairros da burguesia. E por que não há mortes e prisões nesses lugares? Isso explica um pouco a sociologia da sociedade brasileira, onde só quem paga a conta são as classes colocadas mais na base da pirâmide social”.
A pesquisa é muito boa e importante, segundo João Gualberto, porque “mostra como o tráfico está assimilado na estrutura social brasileira, como ele faz parte do dia a dia da sociedade. Ali o foco é na base da pirâmide, lá no alto da pirâmide está lá o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro preso. As atividades ilícitas criminosas já estão implantadas em boa parte do Poder Legislativo brasileiro, presente em boa parte das estruturas de poder. Então, estamos nos transformando num país que tem uma importância social do tráfico muito mais ampla do que matar 190 pessoas no Rio de Janeiro”.
O combate a essa estrutura ilegal passa pela própria revisão do conceito de droga e do conceito de tráfico, segundo João Gualberto: “Hoje o tráfico de drogas é uma atividade econômica enorme e é preciso o Brasil considerar a possibilidade de legalizá-las, porque é a não legalização que produz todo esse mercado. A pesquisa é muito boa e mostra a seriedade que essa atividade tem na sociedade brasileira e como deveremos tratá-la”.
Aproveitando a oportunidade, João Gualberto citou a coluna de Hélio Gaspari, na Folha de São Paulo de 07.12.2025, em que ele chama a atenção que a venda de armas a esses setores no Brasil é feita por grandes vendedores americanos. “Portanto, você tem não apenas o mercado de drogas, porque passa pelo Brasil grande parte da exportação de grande parte dessas drogas, não apenas da oferta de drogas mas da compra de armamentos necessárias nessas operações nas periferias. Então, essa é uma atividade intrinsicamente ligada à estrutura social brasileira, e mais do que isso, uma atividade que passa pelo mercado global das armas. Então, é algo muito sério para a sociedade brasileira deixar isso somente com suas forças de repressão”.

LEGALIZAÇÃO
Numa entrevista de página inteira em A Tribuna de 26 de abril de 2015, o sociólogo Michel Misse propôs, dentre outras coisas, que legalizar drogas leves e descriminalizar os demais entorpecentes é uma das soluções para combater o tráfico. Para ele, muitas vidas teriam sido poupadas se a questão das drogas fosse tratada como caso de saúde pública.
Sobre constantes cobranças de “fronteiras frágeis”, Misse foi enfático: “O Brasil tem cerca de 7 mil quilômetros de fronteira com 10 países. Se fosse em linha reta, isso representaria 1/3 do diâmetro da terra. É impossivel controlar tudo isso, mesmo com drones e a atual tecnologia. O que se faz é controlar os pontos estratégicos. Há muita apreensão na fronteira, mas é preciso que também se controle toda a passagem, dentro do território brasileiro, de armas e drogas. Isso cabe também aos estados, às policiais estaduais. Não há ninguém inocente nessa história”.
Defendeu escola de tempo integral, trabalho preventivo junto às comunidades, profissionalização, “jamais a cadeia”. Claramente contra a redução da maioridade penal, Misse chamou a proposta de “demagogia, populismo penal e com graves consequências. Se já não temos sistema penitenciário adequado para os adultos, imagine então para adolescentes! O perigo é aumentar a violência”.
Para ele, as drogas atraem não apenas adolescentes, mas jovens em geral e isso é no mundo todo: “Mas não há razão para essa repressão toda, essa violência toda. As drogas vieram para ficar, é assunto de saúde pública, não de polícia. Infelizmente só agora o país que começou a guerra às drogas, os Estados Unidos, se deram conta de seu erro. Muitas vidas teriam sido poupadas se o assunto fosse tratado não como caso de polícia, mas de saúde. Sou do tempo em que todos fumavam e muito. Hoje se fuma muito menos, e ninguém proibiu o cigarro. Apenas campanhas bem conduzidas fizeram com que as pessoas largassem o hábito ou diminuíssem o uso. É muito mais eficaz do que se tivessem proibido os cigarros”.
Quanto ao que fazer para enfrentar o tráfico de drogas, Misse foi pragmático: “Legalizar as drogas leves, descriminalizar as drogas em geral, regular a sua comercialização. O tráfico não vai acabar, existe no mundo inteiro, mas vai diminuir muito, será uma atividade econômica pequena, marginal”.
Michel Misse nasceu em 12 de abril de 1951, em Cachoeiro de Itapemirim, Sul do Espírito Santo, cidade então com 30 mil habitantes. Filho de imigrantes libaneses, de progenitor comerciante e cioso por sua educação escolar e mãe atenta a seu crescimento intelectual, foi enviado em 1967, aos 16 anos, para o Rio de Janeiro, a fim de estudar.
Misse não decepcionou os pais: tornou-se um dos maiores pesquisadores da sociologia do crime e da violência no Brasil. Foi perseguido, preso e torturado pela ditadura militar no Batalhão da PE da Tijuca, junto com sua esposa, e durante muito tempo foi vigiado pelo aparelho repressor do regime. Michel morreu em 14 de agosto de 2025, aos 74 anos.
MERCADO DAS DROGAS
Na última sexta-feira de abril de 2010, o professor e sociólogo Michel Misse falou à comunidade acadêmica da Universidade Federal da Bahia sobre “Violência no mercado de drogas do Rio de Janeiro”.
Doutor em sociologia pela IUPERJ, Misse dirigia o Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana da UFRJ. Misse era pesquisador do CNPq com experiência na área de sociologia com ênfase em Teoria Sociológica, atuando principalmente nos temas sociologia urbana, comportamento desviante, drogas, criminalidade e violência urbana.
Nas suas quase duas horas de apresentação, abordou questões essenciais para a compreensão do surgimento do tráfico, além de apontamentos sobre as questões sociais envolvidas no tema.
Abaixo, a seleção de alguns temas abordados por Misse durante sua palestra, compilados e publicados pelo Observatório Baiano sobre Substâncias Psicoativas.
Início
O mercado de drogas, até meados dos anos 60, concentrava-se principalmente na venda de maconha destinada às camadas populares. Ainda na década, devido à influência da contracultura, o perfil do usuário começa a mudar, interessando jovens artistas, intelectuais e estudantes de classe média.
A cocaína, por sua vez, sempre foi consumida nas elites, embora em pequena escala. Sua chegada ao tráfico torna as bocas de fumo, até então sem expressão comercial, mais fortes. Contudo, seu comércio ainda não era muito expressivo, devido ao alto valor de compra, quadro que mudaria no início dos anos 80: a entrada da Colômbia na produção da droga derrubou os preços, o que estendeu o seu consumo às outras classes. Logo as bocas de fumo ganhariam maior importância e a necessidade de defesa do território levaria a formação das primeiras facções – em especial, o Comando Vermelho.
Os Comandos
Ao contrário do que se pensa, os presos políticos – do regime militar – não instruíram, nem organizaram massivamente os presos comuns. Como todos os indivíduos da sociedade, eles também tinham medo de homicidas e sequestradores. Contudo, alguns presos tinham certo perfil social e conviveram com os “subversivos”, trocando informações e iniciando o processo de organização que culminaria no surgimento da primeira facção.
O governo militar, em repressão aos opositores, criou a Lei de Segurança Nacional em 1969, que entre outras mudanças, não diferenciava presos comuns dos perseguidos políticos. Com a Lei da Anistia, os militantes ganham a liberdade, diferentemente dos outros presos. Essa ação dá “legitimidade” para a criação da Falange Vermelha, embrião do movimento que viria a se tornar o Comando Vermelho (CV), com o slogan “Paz, Segurança e Liberdade”.
Posteriormente, por divergências e jogo de interesses, surgiram facções rivais como Terceiro Comando (TC), a Amigos dos Amigos (ADA) e o Terceiro Comando Puro (TCP). Também foram criadas dissidências juvenis como o Comando Vermelho Jovem (CVJ), Terceiro Comando Jovem (TCJ) e Primeiro Comando Jovem (PCJ), criado com o apoio o Primeiro Comando da Capital (PCC).
No início dos anos 90, a corrida armamentista gera uma lógica de guerra no tráfico. Saindo de uma esfera marginal, a missão agora era a eliminação dos inimigos. Fortemente armados, traficantes iniciam uma onda de violência nunca vista até então no Rio de Janeiro.
Um fenômeno possível de se identificar na organização mais recente dos comandos é o da infantilização e posterior feminização do tráfico. Devido às mortes dos homens, as crianças começam e ser recrutadas, serviço que seria passado logo após para as mulheres.
Importante perceber que tal atitude demonstra uma decadência da “instituição” tráfico, forçando atitudes desesperadas como essa. O cansaço da população das favelas também contribui para o quadro, facilitando a entrada de programas do governo, como o “Território da Paz”. Diante desse quadro surge uma nova mudança: a união de diferentes milícias, em defesa do tráfico.
O Tráfico
O tráfico de drogas no Brasil é divido em três circuitos: o primeiro é o de circulação internacional, onde o país é rota de escoamento para outros países e conta com participação de fazendeiros e empresários; o segundo, é o delivery da classe média e, assim como o primeiro, não envolve violência; o último é o mais visível e vulnerável, onde a sociedade condena as drogas.
É no front das camadas populares que a violência se torna explícita e a polícia mais agressiva. Quando se criminaliza uma atividade que tem uma larga aceitação popular, como o tráfico ou o jogo do bicho, o governo se depara com dois fatos: o dever de não desmoralizar suas instituições, como a polícia, além de contrariar uma grande parcela da população.
O Crack
A princípio o crack não era bem visto pelos comandos que dominavam o Rio de Janeiro – o Comando Vermelho e o Terceiro Comando. Isso porque acreditavam que a venda de cocaína poderia diminuir, além do estrago que a substância traria à saúde dos clientes.
O crack entra no mercado das drogas devido a dois fatores: o grande aumento do preço da cocaína, devido à entrada dos EUA na guerra ao narcotráfico, apreendendo grandes quantidades da droga na Colômbia e em outros países latinos: e o elemento essencial para a entrada do crack no Rio foi o enfraquecimento do CV, que com poucas favelas como território e embates com o governo, cederia à venda da substância para se capitalizar.
(Da Redação com A Tribuna e UFBA)
(A série de reportagens da Tribuna Norte-Leste, desdobrando a pesquisa do Data Favela, continua nos próximos dias. As matérias anteriores podem ser acessadas clicando no link abaixo e assim sucessivamente, até a primeira reportagem sobre o tema)
Pesquisa Data Favela: “Quer combater o tráfico, siga o rastro do dinheiro”, diz padre das periferias
























