
Weber Andrade*
O cineasta Cloves Mendes, presente na noite desta quarta-feira, 6, na Câmara Municipal de Barra de São Francisco para a exibição do seu documentário “Contestado, a Guerra sem Tiros”, disse à nossa reportagem que, nas condições econômicas atuais, seria melhor para Mantena (MG), voltar a pertencer ao Espírito Santo.
Nascido em Mantena, sobrinho do primeiro prefeito do município, Cloves Mendes, que vive há anos no Espírito Santo, está fazendo um périplo pela região para exibir o seu documentário, que conta, através de muitas entrevistas, uma parte da história da “Zona do Contestado”, conflito territorial encerrado em 1963.
Logo após a exibição do filme, Cloves, em conversa informal, lembrou que Mantena (MG) já foi um dos municípios mais prósperos da região Leste de Minas Gerais e chegou a ter quase 70 mil habitantes.
“Hoje, a população do município não chega a 28 mil habitantes e boa parte deles depende de Barra de São Francisco para ganhar o sustento”, constata.
Mantena perdeu muito território, com a emancipação de três distritos – Itabinha, São João do Manteninha e Nova Belém – o que provocou grande esvaziamento populacional nos últimos 30 anos.
Por outro lado, Barra de São Francisco, nesse período deixou de depender do município mineiro – que detinha os hospitais, agências bancárias e um comércio mais forte – cresceu vertiginosamente e continua crescendo em níveis muito superiores aos da maioria dos municípios brasileiros.

De acordo com o diretor da Associação Noroeste de Produtores de Pedras Ornamentais, Mario Imbroisi, baseado em pesquisas, o crescimento econômico de Barra de São Francisco atualmente, só tem paralelo em municípios do interior de São Paulo e esse crescimento não vai parar. “30% do PIB do Espírito Santo está aqui”, assegura, destacando o setor de mineração e a agricultura (café e outros produtos) como motores desse desenvolvimento.
O radialista Reginaldo Monteiro, o Ceará, servidor da Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Barra de São Francisco e morador de Mantena (MG), também vê a situação econômica do município onde reside como “difícil”.
“Estive conversando com o Maurício Toledo (também de Mantena, mas com suas empresas e investimentos concentrados em Barra de São Francisco), e ele me disse que um dos seus empreendimentos imobiliários, o Residencial Rocca, tem pelo menos 50 lotes vendidos para moradores de Mantena que disseram que vão construir suas moradias e se mudarem para o município capixaba”, revela Ceará.
Como o empreendimento é de alto padrão, presume-se que todos estes moradores de Mantena sejam pessoas de classe média, empresários e profissionais liberais.
Segundo fontes do site tribunanorteleste.com.br, até mesmo o atual prefeito de Mantena, João Rufino, anda dizendo que gostaria que o seu município passasse a pertencer ao Espírito Santo. A informação ainda não foi confirmada pela nossa reportagem.

Casagrande brinca com a situação
O governador Renato Casagrande, que esteve em Barra de São Francisco recentemente, inaugurando uma clínica de hemodiálise, brincou com o prefeito mineiro, que estava presente na solenidade, dizendo que gostaria que Mantena voltasse a pertencer ao Espírito Santo.
João Rufino, que já associou o município ao Consórcio CIM-Noroeste, do Espirito Santo, vai trazer os pacientes de hemodiálise para a clínica francisquense, como forma de reduzir o sofrimento das pessoas que precisam viajar até Governador Valadares para fazerem a filtragem do sangue.

Mudanças na linha divisória
O desejo de parte da população mantenense, no entanto, carece de acordos que passariam pela legislação federal e a boa vontade dos dois Estados.
Atualmente, em vez de aumentar o seu território, Barra de São Francisco está perdendo espaço para o município mineiro. Tal situação foi constatada pelo prefeito Enivaldo dos Anjos, que não pode autorizar a construção de um posto de combustíveis nas proximidades do distrito mineiro de Bananal, porque descobriu-se que o terreno onde o empreendimento, do empresário Gentil da Mata, de Mantena, que parecia estar em território capixaba, na verdade está do lado mineiro, pelas novas coordenadas do IBGE, que vem atualizando mapas via GPS.
*Na continuação da matéria, iremos ouvir moradores e autoridades dos dois municípios sobre a nova polêmica do Contestado.
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