*João Gualberto Vasconcelos
O policial aposentado, jornalista e escritor José Barreto Mendonça escreveu um instigante livro chamado Quem matou Lacy Ribeiro?: crime de latrocínio ou de amor bandido?.
O autor anuncia, na orelha do livro, que estava escrevendo um trabalho chamado A Saga no Tenente Evaristo, Capanga do Político Muniz Freire.
Fiquei logo muito interessado no assunto, pois o político citado no título do trabalho foi o primeiro presidente eleito do Espírito Santo, em 1892. Depois, teve um segundo mandato de presidente e foi ainda senador da república. Foi nosso primeiro grande oligarca no regime republicano.
Tenho estudado os coronéis ao longo das últimas décadas, sempre sob a perspectiva de seu papel no desenvolvimento do Estado e de suas qualidades cívicas. A proposta do Barreto é a de mostrar o lado mais violento dos coronéis, algo sobre o qual pouco se tem produzido em nosso Estado.
Pouco sabemos sobre as muitas matanças, sobre as brigas que travavam e sobre as perversidades que mantinham com o homem da roça.
Por isso, como pesquisador interessado nas particularidades do território cultural capixaba, fiquei muito instigado a conhecer melhor esse Tenente Evaristo, do qual nunca havia ouvido falar.
Descobri que o Arquivo Público do Espírito possui uma cópia xerox de um livro escrito em 1904 e, segundo uma reportagem assinada pelo notável repórter policial Paulo Cesar Dutra, ele tinha sido atirado ao fogo pelas famílias atingidas pelo relato. Nunca chegou às livrarias.
O romance se passa no município de Rio Pardo, hoje Iúna, que era palco de crimes bárbaros, ocasionados por rixas de família. É uma leitura fascinante, cheia de detalhes das perversidades da autoridade constituída pelo poder público para colocar ordem naquele pedaço do território capixaba.
Segundo Paulo Cesar Dutra, os personagens são reais, com os nomes falseados, embora o nome do então presidente do Estado, Muniz Freire, seja citado por um dos personagens.
O livro foi escrito por Ângelo Guarinello, poeta, escritor e advogado paulista que morou no Espírito Santo, embora eu não tenha encontrado registro das razões pelas quais se mudou para cá.
Foi para Curitiba em 1910, onde morreu em 1961, e é um dos fundadores da Academia Paranaense de Letras, da qual foi o primeiro ocupante da cadeira de número 40. Intelectual produtivo e respeitado, nunca mais se fez presente em nossas letras.
O livro começa com uma matança ocorrida na zona rural, em 1900, por uma briga boba, decorrente do fato de o dono de um pequeno negócio ter se negado a fazer uma venda fiada. Isso evolui em uma grande proporção, acirrando inimizades já existentes, em uma localidade onde só o sangue lavava a honra.
Como decorrência desse episódio, um grupo de 50 valentões invade a casa daquele que havia quebrado toda a venda do agora inimigo. Eles não o encontram em casa, mas aprisionam sua esposa e suas filhas e ficam dias seguidos violentando-as. Nesse mundo, não se matavam mulheres; elas eram surradas e abusadas da forma mais brutal.
O governador Muniz Freire manda, então, o Tenente Evaristo para instalar a ordem no município de Rio Pardo, hoje Iúna, onde a violência só tendia a aumentar.
Logo na chegada, ele atrai o inimigo do governo estadual para uma cilada, a fim de eliminar o pequeno exército de mais de 100 homens que o coronel e chefe político possuía. Aliás, nessa época, todo chefe político do interior possuia seu pequeno exército de capangas.
Daí para frente, o que se vê está próximo da barbárie. Instalado no poder policial na sede da vila, o Tenente Evaristo espanca, tortura, mata e esquarteja quantos queira, por qualquer motivo. Caso uma pessoa não lhe cumprimentasse, ele passava fogo sem dó.
O livro é de leitura eletrizante. O policial, sob as ordens de Muniz Freire no romance, aproxima-se de uma mulher casada e a passa a viver com ela um romance tórrido, totalmente desmoralizante para o pobre marido que, com medo da violência de Evaristo, nada faz e não reage durante muito tempo.
As circunstâncias desse amor maldito e suas consequências dão um tom todo especial ao livro.
Retrato de uma época, o livro mostra a violência que cercava a cena política na primeira república, não apenas entre os capixabas.Esse era o mundo do coronelismo: machista, violento, brutal.
Ângelo Guarinello, desconhecido dos capixabas, é um escritor fundamental para a compreensão da cultura política capixaba, ou de uma fração importante do nosso território.
Será muito importante que um dia consigamos reeditar essa obra fundamental para entender certos meandros de nossa vida política.
*João Gualberto Vasconcelos é cientista político, professor emérito da Ufes





















