O jornalista Danilo Salvadeo, 74 anos, foi levar ao desembargador Pedro Valls Feu Rosa, 58, um exemplar de seu livro “Máfia Capixaba”, prefaciado justamente pelo magistrado, que perdeu o tio, José Maria Feu Rosa, então prefeito de Serra, assassinado em Itabela (BA), a caminho de sua propriedade, juntamente com seu motorista, dentro do processo de atuação de uma organização criminosa no Espírito Santo retratada na obra.
A obra de Danilo cobre o período entre 1989, quando se torna mais evidente a ação de um grupo organizado, a 2003, quando o ex-presidente da Assembleia Legislativa, José Carlos Gratz, teve impedida sua posse como deputado reeleito por meio de uma ação do Ministério Público Federal. José Maria Feu Rosa foi assassinado em 1990, num caso rumoso que marcou o início da série de crimes atribuídos à “Máfia Capixaba”.
Danilo traz à memória o período, numa obra que, no Espírito Santo, equivale ao trabalho que jornalistas cariocas têm feito com obras como o livro “Milicianos: Como agentes formados para combater o crime passaram a matar a serviço dele”, de Rafael Soares, ou o documentário “Vale o Escrito“, dirigido por Pedro Bial, disponível na Globo Play.

A MÁFIA
De acordo com reportagens da Folha de São Paulo, empresários ligados à organização criminosa Scuderie Le Coq financiavam campanhas de prefeitos dos municípios da Grande Vitória (Viana, Serra e Cariacica). Após as eleições, por meio de licitações fraudulentas e contratos superfaturados, recuperavam o dinheiro investido com juros. Além de empreiteiros, os empresários possuíam empresas de aluguel de veículos e conserto de máquinas.
Dirigentes da Le Cocq obrigavam as prefeituras a fraudar concursos públicos para contratar membros da organização, geralmente ex-policiais que atuavam como matadores. O advogado José Petroneto, presidente da Scuderie, era procurador-geral do município de Serra, diz a reportagem.
Vereadores também eram financiados pelos empresários da Le Coq. Se o prefeito se opusesse a contratar serviços dos empresários, a Câmara de Vereadores retirava apoio ou pedia impeachment. Quando não conseguiam, o prefeito era assassinado
Em 1988, José Maria Feu Rosa é eleito prefeito de Serra. Seu vice, o empreiteiro Adalton Martinelli, é um dos empresários que financiavam prefeitos da região para depois extorqui-los, disse ainda o jornal paulista.
Em junho de 90, Feu Rosa e seu motorista são assassinados em emboscada na Bahia por seis homens. Os seis executores são presos. Martinelli, Antônio Roldi e Adalberto Ceolin (sócios nas empresas suspeitas de fraudes em Viana, Cariacica e Serra) são apontados como mentores intelectuais do assassinado de “Zé Maria”.
O advogado Carlos Batista é escolhido para defender os executores, que se encontram foragidos. Os seis são assassinados.
Em janeiro de 1992, Carlos Batista desaparece. O corpo não foi encontrado até hoje. Os inquéritos sobre as mortes de Feu Rosa e Batista ficaram parados. Martinelli, Roldi e Ceolin continuavam atuando com prefeitos eleitos em 92 e 96.
Em 1997, o vice-prefeito de Cariacica, Jésus Vaz, se insurge contra contratos fraudulentos entre a empresa Zorzal (dos três empresários) e a prefeitura. Em agosto de 97, Vaz sofre atentado. O pistoleiro é preso e acusa o prefeito Dejair Cabo Camata de ser o mandante.
Martinelli é preso pelo assassinato de Batista e tentativa de homicídio em Minas Gerais. O motorista da Prefeitura de Serra e ex-policial, Geraldo Piedade, membro da Le Coq, também é preso pelo assassinato dos seis executores de Feu Rosa.
Cabo Camata é preso em operação da Polícia Civil por porte ilegal de armas de grosso calibre. Desembargador Geraldo Correia Lima concede habeas corpus na madrugada seguinte e Camata é liberado. Deputado José Carlos Gratz pede que cúpula da Polícia Civil seja destituída por ter prendido o prefeito.
Em 27 de março de 2000, Dejair Camata, prefeito de Cariacica, morre no Hospital Rio Doce, em Linhares, depois de um acidente na BR 101.
E assim a história se desenrola até a operação político-judicial que tirou Gratz do poder em 2003.
No dia 7 de janeiro de 2003, a Agência Brasil noticiava que o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, iria fortalecer a integração da Polícia Federal com as forças policiais do Espírito Santo, depois de receber o governador capixaba, Paulo Hartung, em início de mandato, para discutir a continuidade da missão especial que investigava o crime organizado no estado.
Na época, o governador disse que o ministro afirmou que o estado passou a ser prioridade do governo federal e que a principal vantagem dessa parceria seria a ampliação do trabalho de inteligência e perícia.
De acordo com denúncia da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), noticiou a agência de notícias do Governo Federal, o crime organizado teria assumido grandes proporções no Espírito Santo, com participação de autoridades dos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo. Num formato semelhante ao da máfia italiana, o crime organizado tem cometido homicídios, falsificações, extorsão, comandado o jogo do bicho, agiotagem e financiamento ilegal de campanhas eleitorais.
Criada em junho de 2002, a missão especial foi responsável pela prisão de dois supostos líderes da criminalidade no Estado, o coronel da Polícia Militar, Valter Ferreira, e o empresário e ex-presidente do Banco do Estado do Espírito Santos (Banestes), Carlos Guilherme Lima.
Segundo, na época, o subprocurador-geral da República, José Roberto Santoro, o empresário era suspeito de chefiar um esquema financeiro ilícito, com acusação de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
O deputado estadual reeleito, José Carlos Gratz, considerado o braço político do esquema criminoso, foi impedido de assumir o novo mandato, como resultado das investigações da missão que envolvia Polícia Federal, Ministério Público, Receita Federal e Procuradoria da República. Gratz era presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo e é considerado o representante da face política do esquema criminoso.
O delegado federal, Rodney Miranda, foi nomeado secretário estadual de Segurança Pública e outros três especialistas da PF foram colocados à disposição do estado pelo ministro da Justiça. “Com essa dedicação, a limpeza do Espírito Santo será feita até o final do ano”, disse na época Hartung.
No dia 24 de março de 2003, o juiz criminal Alexandre Martins de Castro Filho foi assassinado na porta de uma academia em Vila Velha, na Grande Vitória. Ele presidia processos que investigavam membros da suposta quadrilha. O crime foi considerado de mando, mas o suposto mandante até hoje não foi julgado.
Em dezembro de 2008, a Polícia Federal invadiu o Tribunal de Justiça do Espírito Santo para cumprir mandados da chamada “Operação Naufrágio”, deflagrada pelo Ministério Público Federal. Foram denunciadas 26 pessoas. A operação investigou um esquema de corrupção no Poder Judiciário do Espírito Santo, cujas denúncias envolvem venda de sentenças, controle e loteamento de cartórios e interferência em concursos públicos. O caso ainda está em andamento nas instâncias superiores.
Acusados de mandantes da morte de José Maria Feu Rosa, Antonio Roldi morreu de câncer em 2000 e Alberto Ceolin de infarto em 2010, antes que pudessem ser julgados. Adalto Martinelli continua vivo, tem 84 anos, e em 2023 foi livre da acusação por prescrição, até em função da idade – passaram-se 33 anos e a Justiça não finalizou o caso.(Da Redação)























