
Um livro do jornalista Bruno Paes Manso descortina o tema que pode derrubar o primeiro integrante do novo governo do Presidente Lula, a ministra Daniela Carneiro, deputada federal pelo União Brasil e mulher do prefeito Waguinho, de Belford Roxo, baixada fluminense: as milícias formadas por civis e policiais no Rio de Janeiro, bem como suas estreitas ligações com a família do ex-presidente Bolsonaro.
Não poderia haver pior associação para o governo de Lula, o que tem sido fartamente explorado por grupos bolsonaristas. Até agora, com uma semana no poder, o Governo Federal está se mantendo firme na manutenção da “Daniel do Waguinho”, mas não se sabe até quando.
Bruno Paes Manso, além de jornalista pela Pontifícia Universidade Católica, graduou-se em economia pela Universidade de São Paulo (USP), onde também fez mestrado e doutorado em Ciência Política e, depois, pós-doutorado pelo Núcleo de Estudos da Violência da mesma USP, onde atua como pesquisador.
É também pesquisador-pleno de pesquisa em Jornalismo, Direito e Liberdade, ligado à Escola de Comunicação e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados, ambos da USP. Foi “visitint fellow” no Centre of Latin American Studies da Universidade de Cambridge (2016). Sua ênfase de estudos é em Sociologia Urbana e Criminologia.
Graças a essa formação, Bruno Paes Manso escreveu não apenas “A República das Milícias – dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro”, mas também outras obras robustas, como: “A guerra – a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil”, “Mascarados – a verdadeira história dos adeptos da tática black block” e “Os assassinatos da rua Morgue”.
OS MILICIANOS
A resenha do livro de Paes Manso, que pode ser encontrado na plataforma Amazon na faixa de 50 reais, diz o seguinte:
O que fazia o policial Fabrício Queiroz antes de se tornar conhecido em todo o país como aliado de primeira hora da família Bolsonaro? E o líder miliciano Adriano da Nóbrega, matador profissional condecorado por Flávio Bolsonaro e morto pela polícia em 2019? E o ex-sargento Ronnie Lessa, apontado como autor dos disparos que mataram a vereadora Marielle Franco e morador do mesmo condomínio do presidente da República na Barra da Tijuca?
Os três foram protagonistas de uma forma violenta de gestão de território que tomou corpo nos últimos vinte anos e ganha neste livro um retrato por inteiro: as milícias. Eles são apresentados ao lado de policiais, traficantes, bicheiros, matadores, justiceiros, torturadores, deputados, vereadores, ativistas, militares, líderes comunitários, jornalistas e sobretudo vítimas de uma cena criminal tão revoltante quanto complexa.
O livro se constrói a partir de depoimentos de protagonistas dessa batalha. São entrevistas que chocam pela franqueza e riqueza de detalhes, em que assassinatos se sucedem e as ligações entre policiais, o tráfico, o jogo do bicho e o poder público se mostram de forma inequívoca. Num cenário em que o Estado é ausente e as carências se multiplicam, a violência se propaga de forma endêmica, mas deixa no ar a questão: qual a alternativa?
A resposta está longe de ser simples. Sobretudo num país de urbanização descontrolada e cultura política permeável ao autoritarismo. Dos esquadrões da morte formados nos anos 1960 ao domínio do tráfico nos anos 1980 e 1990, dos porões da ditadura militar às máfias de caça-níquel, da ascensão do modelo de negócios miliciano ao assassinato de Marielle Franco, este livro joga luz sobre uma face sombria da experiência nacional que passou ao centro do palco com a eleição de Jair Bolsonaro à presidência em 2018.
Mistura rara de reportagem de altíssima voltagem com olhar analítico e historiográfico, A república das milícias expõe de forma corajosa e pioneira uma ferida profundamente enraizada na sociedade brasileira”.
A MINISTRA
A ministra Daniela Carneiro começou a ser acusada de ligações com milicianos a partir de uma reportagem da Folha de São Paulo, mas logo o restante da grande imprensa entrou no assunto. O Globo noticia nesta sexta-feira (6) que outro acusado de chefiar uma milícia fez campanha e pediu votos para Daniela: Fábio Augusto de Oliveira Brasil, o Fabinho Varandão, réu na Justiça sob a acusação de comandar um grupo paramilitar, que monopoliza o sinal clandestino de TV e internet e a venda de gás de cozinha em dez bairros de Belford Roxo.
Fabinho Varandão participou de caminhadas, eventos em clubes de um comício da então candidata a deputada federal da cidade, em setembro de 2022. Todas as atividades foram em locais que, segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, são dominados pelo grupo de Fábio.
Brasil é vereador de Belford Roxo e foi preso em dezembro de 2018, numa operação da Polícia Civil e do MP-RJ. Segundo a decisão que decretou a prisão, da juíza Alessandra da Rocha Lima Roidis, da 1ª Vara Criminal de Belford Roxo, “imagens de câmera de segurança revelam que Fabinho Varandão impõe o terror no município, pois circula armado na região e conta com proteção de seguranças”.
Ele foi solto em julho do ano seguinte e, desde então, responde ao processo em liberdade e precisa comparecer mensalmente ao fórum da cidade. Em 2020, ele foi reeleito como vereador mais votado de Belford Roxo, após fazer campanha junto com o prefeito Wagner Carneiro, o Waguinho, marido da ministra.
As acusações não impediram Brasil de ganhar vários cargos na Prefeitura de Belford Roxo após a reeleição. Desde 2021, ele foi nomeado, pelo prefeito, secretário de Defesa Civil, da Pessoa com Deficiência e, em maio do ano passado, de Ciência e Tecnologia.
O miliciano Juracy Alves Prudêncio, o Jura, também fez campanha para Daniela e ganhou cargos na prefeitura. O ex-policial militar, condenado a 22 anos por homicídio, entregou santinhos ao lado da ministra numa passeata na Baixada Fluminense em 2018.
Na época, Jura estava preso em regime semiaberto, mas conseguiu autorização da Justiça para sair da cadeia para trabalhar e ganhou o cargo de Diretor do Departamento de Ordem Urbana na prefeitura de Belford Roxo.
Segundo as sentenças que condenaram o ex-sargento da PM entre 2010 e 2014, Prudêncio era chefe do Bonde do Jura, uma milícia acusada de uma série de homicídios na Baixada Fluminense. Ele está preso desde 2009, quando foi o principal alvo da Operação Descarrilamento, da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), que levou para trás das grades nove PMs acusados de integrar a milícia que ele chefiava.
A milícia comandada pelo ex-policial militar Juracy Alves Prudêncio, o Jura, que fez campanha lado a lado com Daniela Carneiro, ameaçou o então deputado estadual Marcelo Freixo na época da CPI das Milícias.
A informação está na denúncia do Ministério Público oferecida à Justiça em agosto de 2009 contra Jura e mais 13 comparsas acusados de integrar sua milícia, o Bonde do Jura. Segundo o documento, “policiais da 3ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar que investigavam a quadrilha foram alvos de ameaças de morte, assim como o deputado que presidiu a CPI das milícias”.
O QUE DIZ O GOVERNO
Depois da reunião ministerial do Presidente Lula nesta sexta-feira (6), o ministro da Casa Civil, Rui Costa, foi questionado se o caso de Daniela foi discutido.
“Não. Esse assunto não foi abordado. Esse assunto não tem nada relevante, substantivo que justifique qualquer preocupação, neste momento, do governo. E, portanto, isso não está na agenda do governo”, respondeu.
A assessoria de Daniela informou que ela recebeu apoio em diversos municípios na campanha de 2018 e que isso não significa que compactue com qualquer apoiador que tenha cometido ato ilícito. (Da Redação com informações do G1 e Folha de SP)
























