
A morte de Lourenço Velloso aos 86 anos, nesta semana, de complicações provocadas pela Covid-19, abriu vaga para a assunção da quarta médium-chefe nos 125 anos de história do Centro Espírita Senhor dos Passos, na Comunidade Velloso, em Nova Venécia. Lourenço era o chefe do centro desde a morte da mãe, em 1976, e será sucedido pela sua sobrinha Maria Helena Velloso Poeys, conhecida como “Conceição Velloso”, 72 anos, filha de José, um dos filhos do fundador da obra religiosa.

O assunto é destaque da coluna do jornalista Leonel Ximenes, no portal Gazeta Online, desde a noite de ontem, 18. Lourenço Velloso morreu na última terça-feira, dia 16, depois de passar 40 dias internado num hospital de Vila Velha, e a coluna registra que o centro é o maior do Espírito Santo, pelo menos quando se leva em conta sua obra social centenária, que a comunidade chama de “caridade”.
Leonel revela que quem garimpou a história para a coluna foi o jornalista José Caldas da Costa, que também é geógrafo e especialista em Psicologia Positiva e Desenvolvimento Humano e vive procurando pessoas centenárias vivas no Espírito Santo. Foi Caldas também quem deu repercussão nacional à história de dona Maria Rita Pereira, moradora de Barra de São Francisco, que fez 114 anos em janeiro último e é a pessoa viva mais idosa no Estado.
A primeira vez que se soube de dona Maria Rita foi através de uma publicação do site O Contestado, registrando a presença da anciã centenária morando na cidade há mais de 30 anos. Agora, Caldas descobriu que lá na Comunidade Velloso, em Nova Venécia, mora dona Filomena, 106 anos, última filha viva do criador do centro, no final do século XIX.

As informações a seguir consideram o publicado pelo jornalista Leonel Ximenes, a quatro mãos com José Caldas. Seria dona Filomena, em função da descendência direta do fundador, a herdeira da liderança mediúnica do centro Senhor dos Passos? É isso o que vamos saber.

Sucessão
Lourenço, na linha sucessória “sacerdotal”, foi o terceiro médium-chefe da história do centro. Sucedeu a mãe, Alexina, que morreu em 1976, após um acidente de automóvel. Ela era a segunda filha do fundador da obra e estava no seu comando desde 1925, quando o pai morreu.
O Centro Espírita Senhor dos Passos tem uma história singular: foi criado por um quase padre em 11 de setembro de 1896, em Laje do Muriaé, então distrito de Itaperuna (RJ), e depois transferido para Bom Jesus do Itabapoana, na divisa do Rio de Janeiro com o Espírito Santo.
Antes de falar da sucessão na chefia mediúnica, há que, primeiro, se conhecer como começa essa história do centro. Sua origem, conta a tradição oral, preservada de geração a geração, bem como sua história, quem a conta ao jornalista é Braz Velloso Pianissoli, 27 anos, quinta geração de Francisco Hilário da Silva, com quem tudo começou.

A data de nascimento de Francisco Hilário da Silva Helena é incerta e calculada com base no episódio que resultou na criação da obra espírita. Era natural de Diamantina (MG), mas sua data de nascimento não é registrada em sua certidão de casamento com Maria Mathilde Nazionzeno da Silva Primo, ocorrido em 4 de fevereiro de 1899.
“Ele devia ter uns 20 anos, pois estava há menos de seis meses para se formar padre em Diamantina (MG), quando recebeu uma missão para ir a Bom Jesus do Itabapoana, e dar um susto numa comunidade espírita que crescia na cidade, dando uns tiros para cima para espalhar o pessoal. Eram épocas de muita perseguição aos espíritas. Assim ele fez, mas, logo depois de cumprir a missão, surtou e desapareceu por três dias. Ninguém tinha notícias dele, até que reapareceu na casa de parentes, todo sujo, roupa rasgada e maltrapilho, desorientado”, conta Braz Velloso, o trineto de Francisco Hilário.
Levado para tratamento espiritual no Rio de Janeiro com Bezerra de Menezes, considerado talvez o maior líder da religião no país, então presidente da Federação Espírita Brasileira, este teria identificado a mediunidade de Francisco Hilário e teria lhe dado a missão de criar um centro, onde fosse o líder espiritual.
Bezerra era médico, militar, escritor, jornalista, político, conhecido filantropo e expoente da Doutrina Espírita, conhecido, mesmo antes de aderir à religião, como “o médico dos pobres”. E foi assim que começou o Centro Espírita Senhor dos Passos, que, entretanto, rompeu com a Federação Espírita Brasileira por uma razão muito singela, vinculada às origens de seu fundador.
“Somos o único centro espírita do mundo onde todos os serviços religiosos são católicos. Francisco Hilário era quase padre e tudo o que fez, as rezas, as liturgias, seguiram a tradição católica. E mantivemos isso. Fazemos novenas, cantamos ladainhas, temos sacramentos do batizado e do casamento, terço, rosário, procissão, via sacra na Semana Santa e a devoção a uma santa católica, mas às quartas, quintas e sábados temos as orações com os passes, conforme o Evangelho Segundo o Espiritismo, codificado por Allan Kardec”, explica Braz Velloso.
O lado, digamos, menos nobre da trajetória do primeiro líder e até os problemas posteriores não são omitidos na transmissão oral da história. De Francisco Hilário sabe-se, por exemplo, que teve dois filhos de seu casamento com Matilde. O mais velho, “Tio Dico”, e Alexina Leite da Silva Helena, nascida em 1901, e mais quatro reconhecidos com outra mulher.
“Mas fala-se que ele teve mais de dez filhos”, destaca Braz, com a ajuda da tia Maria de Cássia Velloso, que hoje conta 66 anos e era filha de seu avô, Braz Velloso, que morreu em 2017 e que também tem um vínculo muito forte com a nova fase da obra espírita em Nova Venécia.
“ESAÚ E JACÓ”
Antes mesmo de Francisco Hilário morrer, houve a primeira cisão, provocada pela preferência do patriarca em preparar a filha Alexina para sua sucessora e não o primogênito, “Tio Dico”. “Logo depois do casamento da Alexina, em 1920, um dia o “Tio Dico” anoiteceu e não amanheceu e roubou tudo o que era do centro, todos os manuscritos, a herança de Hilário, e foi fundar um centro espírita no Rio de Janeiro”, lembra o trineto de Francisco Hilário.
Nota-se claramente que não é bem quisto pela família, tanto é que nem o nome certo dele é passado pelas gerações, ao contrário dos demais da linha hereditária, e o que se fala é que “ele não prosperou na obra”.
“Não se parece com a história bíblica de Esaú e Jacó, filhos de Abraão, patriarca do povo hebreu? Lá houve também uma grande confusão por causa da bênção da primogenitura dada ao segundo filho. Só que, na história bíblica, quem foge é quem recebeu a bênção”, comenta, analogicamente, o jornalista José Caldas, que, curiosamente, é evangélico e estudou Teologia.
Sobre essa aparente contradição, de um evangélico contar a história de um grupo espírita, Caldas comenta: “Foi uma das reportagens mais difíceis de minha vida, somente se assemelhando a quando passei um dia no Mosteiro Zen-Budista, em Ibiraçu, para contar a história deles, na década de 80. A diferença entre aquela e esta é minha maturidade hoje. Precisamos respeitar e considerar todas as pessoas e sua fé”.
Voltando à história da primeira sucessão no Senhor dos Passos. Quando Hilário morre, em 1925, Alexina assume a mediunidade do centro espírita e emerge a figura lendária de seu marido, Agostinho Baptista Velloso. Enquanto Alexina dedica-se totalmente à obra espírita, Agostinho, católico, cuida da herança deixada por Francisco Hilário, que, além de filhos, também prosperou materialmente.
Agostinho nunca criou qualquer empecilho ao trabalho mediúnico de Alexina, desde que se casaram em 17 de abril de 1920, ele com 20 anos e ela com 19. Pelo contrário, talvez tenha incorporado aquilo que é uma marca do Senhor dos Passos até os dias atuais: o sincretismo entre o kardecismo e o catolicismo.
Em 1950, ocorre um fato histórico que dá surgimento a um evento que se torna a marca da comunidade espírita: a festa do Velloso. Braz conta que uma peste se abateu sobre os animais e a mortandade era grande na Fazenda Sesmaria, em Bom Jesus do Itabapoana, que sediava também o centro de Alexina. Ela, então, fez uma promessa a Nossa Senhora das Graças que, se a peste acabasse, anualmente a família faria uma festa, na data em que a imagem da santa chegasse à Sesmaria, em honra da santa e que serviria almoço e café da tarde de graça para quem quisesse participar.
“A peste acabou como que por milagre e no dia 2 de julho daquele ano a imagem da santa chegou à tarde e foi servido um farto café aos presentes ao serviço religioso, com tudo o que poderia haver de bom lá na roça”, conta Braz. E todos os anos, na mesma data a festa se repetiu, pelos próximos seis anos na cidade fluminense.
ÊXODO
No dicionário da língua portuguesa, êxodo significa emigração de um povo ou saída em massa. Mais uma vez a lembrança bíblica é inevitável, pois Êxodo é o segundo livro do Velho Testamento da Bíblia cristã, na coleção hebraica chamada de Pentateuco (os cinco livros).
Em 1955, um grupo saiu da fazenda Sesmaria, em Bom Jesus do Itabapoana, e foi atrás de terras no Norte do Espírito Santo. Depois de percorrer vários lugares em Nova Venécia, escolheu a barra do Córrego da Peneira. Assim, em 1956, no dia seguinte à festa em honra a Nossa Senhora das Graças, portanto dia 3 de julho, as famílias lideradas por Agostinho Velloso começaram a se deslocar para as novas terras, imagem da santa de devoção à frente. Foi mais de uma semana de viagem, as mulheres e crianças de ônibus e de caminhões que levavam a mudança, e os homens a pé, liderados por Agostinho, levando os animais.
Ocuparam uma área de 200 alqueires. Agostinho comandou a prosperidade, acelerada pela descoberta de águas marinhas “no quadrado separado” (com quatro hectares) para a construção do centro. “De tudo o que se achava, 20% era para o centro. Teve quem roubou? Teve. Mas tudo isso impulsionou a obra espírita e a própria comunidade”, conta Braz.
Alexina continuava responsável pelo centro e Agostinho, pela fazenda. Mais três famílias estavam se juntando à comunidade, vindas na grande viagem: Furtado – João Furtado que se casou com a Maria Velloso, irmã de Alexina; Dias – dona Zumira, viúva, acompanhada pelos filhos; e Oliveira- Agneu e Filomena, filhos “naturais” de Francisco Hilário, ela casada com Eraclides José de Oliveira. Quem não era espírita, acabava se tornando, por força da associação comunitária.
“Ou, antes, passou a praticar-se uma espécie de catolicismo espírita ou espiritismo católico”, registrou Caldas para o colunista Leonel Ximenes.
A Fazenda Velloso em Nova Venécia chegou a ter 600 alqueires, dedicada inicialmente à extração de madeira para as serrarias de Colatina, e na sequência à criação de gado. Nos anos 60, a família tentou implantar o café, mas coincidiu com a erradicação dos cafezais determinado pelo governo militar e não deu certo. Em 1958, a prefeitura construiu uma escola na comunidade e Agneu Aquino tornou-se o professor dela.
Pessoas de todo o Brasil e até do exterior passaram a procurar o “centro do Velloso” para tratamento espiritual com a médium Alexina. Logo, passaram a chegar 60 a 70 pessoas por semana. A família ampliou o centro para acolher essas pessoas, que passavam pelo menos nove dias durante a novena no centro. Recebiam hospedagem e comida de graça.
“Como muitas dessas pessoas chegavam com doenças espirituais, logo foi criado um centro de tratamento para interná-las. Naquela época, ninguém fazia isso. Depois, a própria igreja católica e os evangélicos passaram a fazer, o que aliviou bastante a nossa carga, mas a obra continua e já temos mais de 60 mil pessoas catalogadas como tendo passado pelo centro de tratamento”, enumera Braz.

ASCENSÃO DE LOURENÇO
Alexina morreu em 1976 e Agostinho Velloso em 1980, de infarto, no dia 3 de julho, um dia depois de comandar a festa de 2 de julho naquele ano, mas as festas do Velloso continuam acontecendo por tradição. Já chegaram a atrair até 13 mil pessoas num só dia. Começam às 5 da manhã e vão até às nove da noite. Pelo menos 5 mil pessoas almoçam e tomam café da tarde nesses dias. A comunidade cresceu muito. A descendência de Francisco Hilário é calculada em mais de 600 pessoas até a quinta geração.
“Por aqui já passaram, que eu me lembre, dois governadores e tudo que é deputado, médico, desembargador, juiz, gente da alta sociedade, mas todos para nós são iguais”, revela Braz.
A pandemia de Covid, entretanto, impediu que a festa ocorresse em 2020 e já está decidido que também não haverá este ano. Mas, para 2022, se já estiver todo mundo em segurança sanitária, os herdeiros do culto espírita já programam a maior de todas as festas, para celebrar os 125 anos de fundação do Centro Espírita Senhor dos Passos e os 70 anos da chegada da imagem de Nossa Senhora das Graças na Fazenda Sesmaria, no Norte fluminense.
Possivelmente, marcará oficialmente a “consagração” da nova “sacerdotisa” do culto sincrético, que mistura elementos do catolicismo e do espiritismo, que sucederá a Lourenço Velloso, morto pelo vírus que interrompeu a tradicional festa em homenagem à santa que acabou com a peste dos animais em 1950.

E como foi escolhida a nova médium-chefe, Maria Helena Velloso Poeys, conhecida como “Conceição Velloso”, 72 anos, filha de José? É Braz, o trineto de Francisco Hilário, quem explica:
“O processo de escolha é natural e ninguém contesta. A pessoa vai se comprometendo com o trabalho, assumindo a responsabilidade. Há dois anos, meu tio Lourenço já havia chamado a tia Conceição e dito para ela que seria sua sucessora. Com a morte dele, apenas se oficializa”.
Dona Filomena continua lá como monumento histórico e representante direta do fundador do culto. Sua filha Madalena, 85 anos, é figura de destaque no centro, cuida das orações. Mãe e filha são remanescentes da grande viagem empreendida em 1956 de Bom Jesus do Itabapoana para Nova Venécia.
NOVOS TEMPOS
Nos últimos anos, houve uma grande transformação na Comunidade do Velloso. O centro, que antes era apenas um serviço religioso, tornou-se uma associação de utilidade pública municipal e estadual, uma pessoa jurídica que pode receber recursos públicos de convênios, “mas que nunca recorreu a esses benefícios”, salienta Braz.
O trabalho de organização da comunidade religiosa em entidade civil é atribuído à capacidade de organização e à visão de Braz da Silva Velloso, que parece ter herdado esse senso do pai Agostinho. Foi Braz quem comandou, do ponto de vista administrativo, a comunidade nos últimos 50 anos.
Em 2017, parecendo prever a própria morte, ocorrida em dezembro, Braz Velloso decidiu reunir a associação em março e eleger aqueles que passariam a comandá-la. Como uma espécie de patriarca dos tempos antigos, elegeu: Reginaldo Furtado (presidente), Maria de Cássia Velloso (vice), Mateus Oliveira (secretário), José Oliveira (2º secretário) e Braz Velloso Pianissoli (tesoureiro). No conselho fiscal, uma mescla de juventude com experiência: Ronaldo Furtado, irmão de Reginaldo; Magno Velloso Poeiz, filho do Ivan e Conceição; e Carlos André Oliveira, filho do Francisco Oliveira. Em dezembro de 2020, a assembleia renovou o mandato da diretoria.
É uma espécie de dinastia construída, principalmente, a partir do casamento de Alexina e Agostinho Velloso, que geraram 14 filhos, sendo que 13 viveram para construir essa história e dos quais somente resta um, todos netos de Francisco Hilário da Silva, fundador do Senhor dos Passos: Daldi da Silva Velloso, o Dadinho, Maria, José, Porcina, Francisco, João, Jorge, Braz, Lourenço, Agostinho (único vivo, que fará 86 anos no dia 15 de abril), Rafael, Gabriel e Tereza (que hoje teria 75 anos).
E assim a tradição vai ser passada, de geração a geração. Os mais jovens que estão assumindo os ofícios estão abaixo dos 30 anos, como Braz e seu primo Mateus, que está sendo preparado para ser o sucessor de Conceição na chefia da mediunidade do Senhor dos Passos. E a Comunidade Velloso, cortada pela BR 342, a 35 quilômetros de Nova Venécia e a 50 de Ecoporanga, na Região Noroeste do Estado, só faz crescer e prosperar, com base numa administração própria e na firmeza da fé construída pela tradição. (Da Redação, com coluna Cotidiano/A Gazeta)



























