*Usiel Carneiro de Souza
Hoje chorei meus mortos. Muitos. Acabei me dando conta de que viver também é acumular mortos. Pessoas que partem e que queríamos que ficassem. Não se trata de entender suas partidas.
John Donne, poeta inglês que viveu no século dezessete, traduziu bem a ideia. Quando morre alguém, morre um pouco de todos nós. Morre porque faz falta. É preciso reorganizar a realidade. O cérebro leva um tempo para fazer isso.
O coração é completamente incompetente. Ele segue sentido. Sua melhor chance é aprender a sentir sem precisar morrer.
Hoje chorei meus mortos e descobri que devo, vez por outra, chorá-los. Fazer isso me ajuda a ser humano num mundo tão desumano. Um mundo em que tão facilmente nos desumanizamos ao ponto de perder a razão.
Aquela razão que nos diz que nenhuma regra vale uma pessoa. Que nenhuma crença justifica um preconceito. Que nenhuma desavença é motivo bastante para aniquilar o outro. Que nenhum dinheiro pode comprar paz, por mais diversão que possa ofertar ou poder que pareça garantir.
Como esse mundo desumaniza! Ele está transbordando de mentiras e ilusões fantasiadas de verdades e realidades. Quem de nós não acredita, ao menos por algum tempo? Não cair no seu tão bem elaborado engodo exige a prática de exercícios que nos forcem à lucidez. Descobri que chorar meus mortos é um deles.
Hoje chorei meus mortos, não para lamentar o que não foi possível, mas para me lembrar de tudo que valeu e ter mais sabedoria para usar meu tempo e oportunidades para com os vivos. Para dar valor àquelas escolhas que não geram dinheiro ou ofertam lucro.
O dinheiro, sem dúvida, precisa estar na agenda, mas apenas por causa das necessidades. Não deve ser priorizado apenas por ganância, ainda que modesta, pois ele tem um incrível poder de me afastar do que me fará realmente feliz e dará sentido à minha jornada aqui.
Poder de me afastar das atitudes e escolhas que me aproximarão dos amigos, que me ajudarão a cuidar melhor dos que amo e a amar de alguma forma aqueles e aquelas que nem mesmo conheço. E é isso que dá sentido à vida.
Hoje chorei meus mortos. Um choro que me disse tantas coisas! Agora vou precisar de tempo para reorganizar meus dias, repensar minhas prioridades, respirar profundamente para com coragem tomar as decisões mais certas.
Foi um momento de revisar o modo como faço meus cálculos. Desconfiar de algumas velhas certezas e abraçar algumas novas. Perder alguns medos e substituir por outros. Diante da morte, as mentiras e ilusões perdem a graça, revelam-se insuficientes.
Decidi que quero voltar a chorá-los de tempos em tempos. Não serei capaz de me manter lúcido sem ajuda. Já estou na vida o bastante para reconhecer isso.
Compreendo melhor o Eclesiastes da Bíblia que diz que “É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério!” (Eclesiastes 7:2).
E, se levarmos a sério, abriremos mais facilmente a mão para cumprimentar e aceitar reconciliações. E com mais facilidade fecharemos para desferir socos e negar ajuda. Seremos mais generosos que sovinas, entendendo a lógica dos antigos que diziam “mais vale um sorriso no rosto do que um tostão no bolso”.
Meu lamento e choro pelos meus mortos me levou Àquele que morreu por amor a mim e a você. Sua vida foi cheia de tudo que meu choro me ajudou a ver: amor, simplicidade, compaixão, humildade. Ele, sendo tão poderoso, escolheu a fragilidade. Sendo dono de tudo, entre nós nada possuiu. Nem mesmo um lugar para reclinar a cabeça.
Porque deixamos que, por tão pouco e facilmente, alguém nos convença de que precisamos do que ainda não temos e de que devemos nos agarrar com unhas e dentes até o que nem mesmo usamos? Que ganhar mais deve nos levar a ter mais cadeados em lugar de mais cadeiras ao redor da nossa mesa?
Estou convencido de que precisarei, sim, de voltar e chorar meus mortos. Para então mais humano, mais humilde e mais saudoso da vida, voltar aos pés do meu Senhor, aos pés daquele que vive para sempre. E novamente me comprometer a amar e servir como Ele disse que devo fazer.
Mais corajoso para acreditar que, como Ele disse, quem quiser viver para si, garantir para si o que a vida tem de melhor, quem quiser salvar a si mesmo, irá perder a existência.
Hoje chorei meus mortos. Os mais recentes deles, meu genro Everton Vicente Monteiro e sua mãe, Maria Lucinete Monteiro. Seguiremos amando vocês!
*Usiel Carneiro de Souza é administrador e pastor batista






















