
Por Thiago Espindula*
O presidente dos Estados Unidos está prestes a assinar uma medida que visa restringir o investimento norte-americano em empresas de tecnologia chinesas, algo que vai na mesma linha de uma medida tomada na semana passada que proibiu algumas empresas do país de venderem chips para a Rússia e para a China, prejudicando economicamente essas empresas, que viram o valor de suas ações cair no mercado.
Indo na contramão do discurso de democracia e de livre-mercado que diz defender, o governo dos Estados Unidos tem tomado medidas cada vez mais desesperadas para tentar conter o avanço tecnológico chinês, que se reproduz não só em um avanço sobre os mercados, mas também no desenvolvimento de tecnologias que podem ser utilizadas no meio militar, sobretudo na área de inteligência artificial.
Em tempos de digitalização de todas as instâncias da vida, Estados Unidos e China não disputam apenas no que diz respeito à questão da inteligência artificial, mas também no domínio das infraestruturas de internet, o que significa um controle direto sobre os dados das pessoas, das empresas e dos Estados, isso além de representar um controle sobre o mundo material, já que a internet 5G permite o avanço da “internet das coisas”.
Vemos mais uma peça, do quebra-cabeça da consolidação do processo de desglobalização, nessa tentativa do governo dos Estados Unidos de estrangular o setor de tecnologia chinês, já que os ianques tem buscado internalizar a sua produção de tecnologia trazendo para dentro do território dos Estados Unidos a tecnologia taiwanesa de produção de semicondutores, peça central do desenvolvimento tecnológico.
Outro movimento que vai nessa direção diz respeito ao conteúdo de um artigo, publicado recentemente pelo Fórum Econômico Mundial, que trata da importância da União Europeia internalizar a sua produção de tecnologia para se tornar menos dependente da Ásia, o que significa que poderosos setores financeiros estão estimulando a quebra da cadeia de suprimentos para conseguirem reformatar a relações comerciais globais.
O grande desafio que o mundo atlanticista tem pela frente é o de conseguir tornar-se industrialmente independente da China e energeticamente independente da Rússia, sendo que, para promover o avanço da 4ª revolução industrial na Europa, depende dos combustíveis russos para gerar a energia que dará suporte a essa transformação, o que coloca o continente diante de um impasse: sancionar a China e a Rússia sem destruir também a sua própria economia.
Se, em condições normais, os mercados asiáticos já apresentavam grandes vantagens de custo de produção em relação à Europa, isso se torna ainda mais gritante em um cenário de sanções contra a Rússia, não à toa inclusive veículos da mídia corporativa ocidental tem falado sobre um possível processo de êxodo industrial europeu, já que, sem o gás russo, o continente perde muito de sua competitividade.
O artigo do Fórum Econômico Mundial propõe que a reconstrução da industrialização tecnológica europeia deve se dar sobre bases energéticas sustentáveis, o que torna a proposta ainda mais distante da realidade material que o povo europeu vive, tanto que o continente tem vivido protestos de uma população que não aguenta mais pagar o custo dessa reformatação forçada pelas oligarquias financeiras transnacionais.
É nesse contexto que um conflito entre a China e o atlanticismo em Taiwan pode cumprir o papel de tentar angariar o apoio de setores da sociedade a sanções contra a China, assim como o conflito na Ucrânia serviu para fazer o mesmo em relação à Rússia, muito embora a tentativa de isolamento da Europa em relação aos dois países irá piorar ainda mais a vida do povo europeu, que hoje já enxerga no horizonte um inverno de penúria econômica e social.
*Professor graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Técnico em Publicidade e Propaganda, escreve no site https://verdadeconcreta.wordpress.com/
























