O município de Barra de São Francisco registrou, última sexta-feira, 6, o menor número de casos ativos de Covid desde 20 de julho de 2021: apenas 36 pessoas com o vírus ativo, o equivalente a 0,08% da população. Mas há quatro meses esse número era alarmante. Haviam 928 casos ativos no dia 8 de abril, um recorde assustador, equivalente a 2,06% dos 45 mil habitantes do município.
Bastaram quatro meses para, combinando medidas corretas e respeito à ciência, Barra de São Francisco saísse de um quadro caótico, com mais de 70 mortes em apenas um mês, para reduzir gradativamente a contaminação da população a ponto de atingir seu mais baixo índice em 12 meses.
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Para se ter uma ideia do que isso significa, no pico da doença entre março e abril, o município chegou a ter todos os 57 leitos do Hospital Estadual Dr. Alceu Melgaço Filho (Hedamf) ocupados por pacientes de Covid, sendo 10 em UTI e mais de dez em tratamento semi-intensivo.
Naquela época, o hospital foi transformado em referência de Covid pela Secretaria de Estado da Saúde. Houve dia em que Barra de São Francisco chegou a registrar oito mortes pela doença e as funerárias faziam fila para recolher os corpos, o que fez a cidade virar notícia nacional. Desde março de 2020, quando começou a pandemia, a cidade registra até o momento 204 mortes – o que equivale a 0,45% de sua população.
Mas, afinal, qual foi a razão do sucesso de Barra de São Francisco no controle da doença, a ponto de já estar permitindo público no estádio Joaquim Alves de Souza, nos jogos do Santos numa competição regional, desde meados do mês de julho?
Fomos ouvir a enfermeira Caroline Possatti, 36 anos, há 14 formada e atuando na área pública. Ela é uma das profissionais mais experientes do município e está na linha de frente do combate à doença desde que surgiu o primeiro caso em Barra de São Francisco, dia 22 de abril de 2020, através de uma servidora do hospital, sucedendo uma onda de contágio entre os funcionários. No dia 5 de maio, a paciente Terezinha Fleger Vargas, de 73 anos, que estava internada no mesmo hospital, morreu em consequência da Covid – o primeiro caso da cidade.
A servidora que inaugurou os casos em Barra de São Francisco teve contato com um bancário da cidade, que era gerente da Caixa em São Mateus e morreu no dia 4 de abril de 2020, naquela cidade. Três dias antes, dia 1º de abril, a Secretaria de Estado de Saúde havia registrado o primeiro caso de morte por Covid no Estado – um homem de 57 anos, morador de Serra, e que era obeso.

TNL – Qual sua avaliação desse quadro de Covid em Barra de São Francisco e da redução aos níveis atuais?
CAROLINE – Eu acompanho a pandemia desde que ela surgiu no País. Temos que considerar a ciência em torno de uma doença desconhecida. Tudo no início era novidade, testes, hipóteses, para lidar com o vírus. Com o passar do tempo, com o aperfeiçoamento dos estudos, a Medicina ficou mais segura para prevenção e tratamento, e a comprovação da evolução da Medicina em tão pouco tempo foi o surgimento da vacina. A diminuição dos casos em vários lugares teve um tempo próprio, dependendo da evolução do vírus e o comportamento da população.
A imunidade de rebanho, provocada pelo alto contágio, combinada com a vacinação, foram fatores importantes para a redução dos casos. Tivemos o nosso pico e ao mesmo tempo foram chegando as vacinas. O nosso Estado foi muito eficaz na vacinação e isso ajudou muito na diminuição dos casos, de modo geral. Este é o primeiro ponto, mas o segundo ponto é o mérito do município.
TNL – Qual o papel do município nessa redução?
CAROLINE – Fomos criando protocolos, e as notas técnicas saíam todos os dias. Nosso município, em particular, foi de vanguarda. Antes mesmo do incentivo financeiro do Ministério da Saúde para criação de centros de Covid, Barra de São Francisco montou uma equipe estratégica para enfrentamento e fomos bem audaciosos e criamos um centro de apoio aos pacientes de Covid. Em maio de 2020, quando surgiram os primeiros casos, criamos nosso centro, mantido pelo município, e o Ministério da Saúde somente criou essa política em julho. Então, já tínhamos nossa experiência de dois meses.
TNL – Em que o município se diferenciou?
CAROLINE – Trabalhamos assim ao longo do ano e chegou a nova gestão. O prefeito Enivaldo dos Anjos abraçou a ideia e, foi além, intensificou o projeto de forma mais ampla, com atendimento ao maior número de pessoas. A realidade é que, até o prefeito Enivaldo criar o centro de covid mais amplo, no prédio da antiga Uniube, as pessoas passavam mal e tinham medo de ir para o hospital. Ficavam em casa, pioravam e somente então procuravam ajuda. Foi trágico, porque isso resultou naqueles números crescentes e assustadores nos meses de março e abril.
TNL – Podemos dizer que o novo centro de Covid, na Nova Barra, foi o ponto de virada?
CAROLINE – O novo centro de Covid, mais amplo, com equipe grande, deu mais segurança aos pacientes para procurarem ajuda precocemente e evitar a morte. Esse foi o ponto de virada no controle da doença. O centro com mais recursos e profissionais deu super certo. Hoje temos um fluxo criado pelo Ministério da Saúde e adaptado por nós.
TNL – Houve fatores sociais também influenciando a redução nos casos?
CAROLINE – Atrelado a isso, tivemos melhora no comportamento das pessoas. Ainda hoje, mesmo controlada a doença, as pessoas são mais cautelosas. As medidas administrativas foram importantes, o município tem EPI para as pessoas trabalharem, o isolamento de quem apresenta sintomas. Os recursos estão sendo muito bem administrados de acordo com as necessidades. O Ministério Público acompanha de perto e nos ajuda muito. O dinheiro está sendo usado com muita responsabilidade.
TNL – Qual a importância das medidas restritivas adotadas pela administração?
CAROLINE – As medidas restritivas aplicadas pelo município surtiram efeito por fazer bloqueio em massa da provável contaminação do vírus. Permitiu retardar a esperada onda que prometia um caos nos hospitais do Estado. Mesmo com prejuízo econômico, conseguimos controlar os casos e permitir o retorno com mais segurança às atividades essenciais. Foi necessária essa medida severa para salvar vidas e bastou muita coragem para que o controle se instalasse e possibilitar o regresso da nova normalidade.
TNL – Faça um resumo do que você acha fundamental nesse controle da Covid na cidade.
CAROLINE – Local amplo para atendimento, testagem para cerco sanitário, vacinação, investimento em equipamentos e insumos, aumento do número de profissionais para assistência e as medidas restritivas, sem esquecer do comprometimento em massa dos profissionais de toda a prefeitura que atuam contra a Covid e do pessoal da saúde, incansável.

Prefeito: Não podemos descuidar
O prefeito Enivaldo dos Anjos comemora com discrição o sucesso das ações municipais – “está bem controlado” -, mas não baixa a guarda – “a gente tem que ter responsabilidade para usar a liberdade, sem comprometer a segurança uns dos outros”. Sem dar ouvidos aos críticos, Enivaldo, ao mesmo tempo em que montava o “minihospital” do centro de atenção a pacientes com Covid, decretou estado de calamidade com toque de recolher na cidade.
Um terço da população de Barra de São Francisco foi testada, na sede e nos distritos, e a vacinação está em nível considerado bom, diante do ritmo nacional: com população de 45 mil habitantes, Barra de São Francisco já está vacinando a população a partir de 18 anos. Foram aplicadas 31.681 doses, sendo 21.740 vacinas da primeira dose (48,33% da população) e 9.941 de segunda dose (um em cada cinco francisquenses já está completamente imunizado contra a doença).
Dentre as medidas complementares, o prefeito Enivaldo dos Anjos criou um centro de apoio alimentar, que visa garantir a segurança alimentar da população mais vulnerável e desde o início de abril já serviu quase 60 mil marmitex, com alimentos doados pela população e comprados pela prefeitura.
“Enquanto eu for prefeito, ninguém passa fome em nossa cidade” disse Enivaldo, que assumiu a prefeitura com pouco menos de 50 mortes pela Covid e foi surpreendido pela onda de março e abril. Quando o prefeito assumiu, em 1º de janeiro, havia pouco mais de 80 casos ativos. Em 8 de abril, esse número bateu, assustadoramente, em 928 casos (2,06% da população). Agora, caiu para 36 (0,08%).
Em tempo: em nenhum momento, Barra de São Francisco se envolveu com o polêmico kit covid. Não usou ivermectina e nem cloroquina. Usou as informações científicas, cuidado com a população, lockdown e toque de recolher na hora e na medida certa, vacina (a primeira pessoa vacinada, no dia 20 de janeiro de 2021, foi dona Maria Rita Pereira, a mulher viva mais velha do Estado, com 114 anos), testagem em massa, investiu no acolhimento dos pacientes de Covid e mobilizou a população para enfrentarem juntos a doença, com uma criativa campanha que envolveu sorteio de brindes como cabritos, leitoas, bezerros e outros prêmios para quem fosse flagrado usando máscara. (Da Redação com José Caldas da Costa)

























