
Depois de sediar o armazém da primeira guerrilha contra a ditadura militar (1966-67), a cidade de Guaçuí, na região do Caparaó, a 220km de Vitória, agora foi escolhida como esconderijo de uma das pessoas investigadas por financiar os atos antidemocráticos da extrema direita brasileira, que no último dia 8 de janeiro tentou provocar um golpe civil-militar contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Assessor parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio, Carlos Victor de Carvalho é o último dos três presos em operação da Polícia Federal por suspeita de financiar os atos golpistas em Brasília. Considerado até então foragido, ele foi encontrado nesta quinta-feira, 19, em uma pousada do município do Sul do Espírito Santo.
Após a prisão, Carvalho foi exonerado do cargo de assessor parlamentar do deputado estadual bolsonarista do RJ Filippe Poubel (PL) —no qual atuou desde maio passado. Segundo o deputado, a exoneração se dá “para que ele possa ter pleno direito à defesa nos trâmites do devido processo legal”.
Em nota, Poubel disse que “sua oposição ao governo federal não o impede de repudiar atos ilegais”. O salário líquido de Carvalho como assessor parlamentar é de R$ 5.588,30. CVC, como é conhecido, é líder do grupo “Direita Campos”, na cidade de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense.
Nas redes sociais, CVC se mostra apoiador de Bolsonaro — em seu perfil no Twitter, chega a adotar o sobrenome do ex-presidente— e propaga mensagens golpistas.
Em 8 de dezembro, ele escreveu em um de seus perfis no Facebook: “Imagine só… Você acorda amanhã e fica sabendo que às 5 horas da manhã a Polícia Federal bateu na porta do Alexandre de Moraes e levou ele preso. Algumas horas depois é anunciado a anulação [sic] do processo eleitoral fraudado por ele.”

Militância bolsonarista
Nas redes sociais, CVC se mostra apoiador de Bolsonaro — em seu perfil no Twitter, chega a adotar o sobrenome do ex-presidente e propaga mensagens golpistas.
Em 8 de dezembro, ele escreveu em um de seus perfis no Facebook: “Imagine só… Você acorda amanhã e fica sabendo que às 5 horas da manhã a Polícia Federal bateu na porta do Alexandre de Moraes e levou ele pra preso. Algumas horas depois é anunciado a anulação [sic] do processo eleitoral fraudado por eles”
Em fotos postadas, o suspeito se exibe com camisetas com o rosto de Bolsonaro. Em uma das imagens, o assessor parlamentar empunha um revólver. Nas redes, CVC também fez coro à campanha pelo voto impresso, liderada pelo ex-presidente.

Guerrilha do Caparaó
O Ato Institucional nº 1 do governo militar – que se instalou no Brasil em abril de 1964, após o golpe civil-militar iniciado pelo general Olímpio Mourão Filho no final da tarde de 31 de março e consolidado com o cerco simbólico do Maracanã e do Palácio do Catete em 1º de abril – teve como suas principais vítimas os militares que eram ligados ao presidente constitucional deposto João Goulart. Mas o novo governo, instalado em abril de 1964, cassou também muitos civis, dentre eles vários políticos que haviam apoiado o movimento golpista.
A maior parte dos militares cassados pelo AI-1 era de praças e oficiais de baixa patente, principalmente aqueles que tinham relações com a organização classista da categoria e também os marinheiros que participaram de movimentos de sustentação ao governo deposto principalmente ao longo do mês de março.
Sem chances de sobrevivência e em tempos em que as ideias estavam vinculadas à guerra fria do mundo bipolar (Estados Unidos x União Soviética), um grupo desses militares expulsos se organizou e buscou apoio de políticos exilados – especialmente João Goulart e Leonel Brizola – para resistir em armas. Foi disso que resultou a primeira tentativa de implantação de uma guerrilha na região do Caparaó, entre o Espírito Santo e Minas Gerais.
A história está bem explicada no livro “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura” (Editora Boitempo, 2007), que recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Melhor Livro Reportagem no ano em que foi lançado e serviu de referência para o documentário “Caparaó”, do cineasta Flávio Frederico, que venceu o Festival Internacional É Tudo Verdade. O livro foi resultado da pesquisa do jornalista José Caldas da Costa, hoje diretor do portal Tribuna Norte-Leste, e foi considerado pela revista Época como uma das 50 obras mais importantes para se entender o regime militar no Brasil.
Enquanto o grupo de resistentes se organizava nas montanhas do Caparaó, uma rede de apoio se formava, envolvendo mais de 100 pessoas, inclusive no Exterior. Em Guaçuí, o pai de um dos participantes da guerrilhas se instalou como um pequeno comerciante na rua do Norte, em companhia do filho mais novo. Na verdade, era o armazém da guerrilha. Homens que se apresentavam como carvoeiros levavam os alimentos para a serra em lombos de mulas. (Da Redação com UOL Notícias).
Foto da capa: Juliana Nascimento/Inter TV – Chegada de CVC à Delegacia da PF em Campos (RJ)























