*Usiel Carneiro de Souza
Há alguns anos essa afirmação de Jesus registrada no Evangelho de João popularizou-se: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8.32).
Quero me valer do fato para refletir sobre o desafio que enfrentamos como sociedade e que tem custado nossa possibilidade de, como povo brasileiro, como nação, exercer o poder que de nós emana, segundo dizem. Pois no âmago da questão está justamente o desafio de discernirmos a verdade.
A impossibilidade de uma verdade que nos una nos coloca à mercê de quem, em lugar de servir à nação, ao estado, à cidade, aos brasileiros, serve-se!
Interessante notar que até mesmo no campo da fé, lugar de origem das palavras de Jesus, a verdade anda sofrendo. O Evangelho por ele anunciado tem sido misturado com todo tipo de esquemas que se valem da fé e traduzem-se em doutrinas religiosas que pouco contribuem para a libertação e muito cooperam com a exploração e o abuso de pessoas em busca da verdade.
A natureza da verdade é libertar. Mas encontrar-se com a verdade sempre foi um problema para nós e por várias razões. Pilatos, ao julgar Jesus, dirigiu-lhe uma pergunta retórica: “O que é a verdade?” (Jo 18.38).
São tantas mentiras e manipulações, narrativas e fatos cuidadosamente manipulados! E tudo isso não é novo. Por fim privatizamos e individualizamos a verdade. Que cada um tenha a sua e para tudo!
Conquanto haja essa dimensão pessoal na questão da verdade, sendo inclusive muito importante, há verdades que são de natureza coletiva, histórica, factual. Não deveriam submeter-se a intenções individualizadas ou de qualquer grupo. Sem isso nos fragilizamos como povo e, pior, corremos o risco de ver no outro um inimigo. E isso tem acontecido.
As redes sociais com seus algoritmos tem contribuído grandemente para essa dissociação comunitária e corrupção da verdade em nossa sociedade. Elas criam cenas e fortalecem perspectivas que estreitam e corrompem nossa visão dos fatos e da vida.
Somos alimentados à exaustão com o que somente confirma certo ponto de vista. Não há oferta do contraditório e cada vez menos queremos contato com ele. E, assim, reduzimos drasticamente nossa capacidade de reflexão.
Pensamos de forma linear, em categorias simplórias demais para compreendermos o contexto em que vivemos, para dar conta da complexidade da vida. Tornamo-nos uma coletividade de afetados, de afetos inflamados.
Acabamos apaixonados e completamente crédulos de tudo que confirma o que pensamos ou que nos fizeram pensar. Não temos uma luz que nos faça ver mais claramente para então nos posicionarmos.
Perdemos a sensatez que nos fazia mais calmos, reflexivos, por admitirmos que ninguém tem consigo toda verdade e entendermos que firmeza, neste caso, não é jamais mudar de lado, mas ter conosco valores que nos permitam julgar e escolher em cada momento o que é justo, necessário, prioritário e que contribui para uma sociedade mais igualitária. Independente do “nosso” lado. Pois esse “nosso” lado foi uma construção que fizeram para sermos úteis a projetos de outros.
Precisamos voltar a pensar e, para isso, precisamos voltar a conversar. Praticar aquela dinâmica exigente de falar e ouvir verdadeiramente o que o outro diz. Precisamos entender novamente que nossos posicionamentos diferentes não precisam nos fazer inimigos!
Não devemos esquecer de que todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto. Precisamos também buscar uma higienização de nosso mundo interior. Estamos muito cheios de intolerância e inimizade, de julgamentos e preconceitos. Precisamos repensar a realidade a partir do respeito e do amor que devemos ter uns pelos outros.
É de Jesus a afirmação “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. As boas novas que ele trouxe (que é o que significa “evangelho”) são, sem dúvida, um caminho seguro para nossa libertação, amadurecimento e cura.
Crer no Evangelho de Jesus é aceitar a centralidade do amor, da bondade e da misericórdia. É ver o próximo com interesse, respeito e compaixão. Sem discernirmos a verdade tendemos ao medo e à desconfiança.
Os ensinos de Jesus nos possibilitam acertar o caminho e conhecer a verdade, especialmente quando tantos sinais enganosos e paisagens falsificadas dificultam nossa visão da realidade.
Como os instrumentos de uma aeronave que permitem ao piloto aterrizar mesmo sem conseguir ver a pista de pouso, dando-lhe recursos para tocar o solo, que ele não vê, com a máxima gentileza possível, o Evangelho de Jesus nos orienta para a verdade e a liberdade!
Como sociedade temos sido adoecidos por uma política partidária predatória e um sistema político viciado que precisa de reforma. Nossa desunião como cidadãos apenas contribui para que somem-se a isso representantes cuja qualidade como atores políticos esteja extravagantemente abaixo do mínimo necessário. Variamos de meninos encantados com o cargo a trogloditas brandindo seus tacapes.
O jogo fisiologista, que não é novo, tornou-se agora a regra absoluta praticada sem que haja a mínima preocupação em dissimulá-lo. Caso não esteja acostumado ao termo, o fisiologismo político é uma prática que prioriza interesses privados em lugar de cuidado com o que é público. Buscam-se benefícios pessoais, partidários e de pequenos grupos em detrimento do bem comum, do povo. E é isso que assistimos o tempo todo e que apoiamos apenas porque tal partido ou político representa “nosso lado”.
Agimos em nossa cidadania como torcedores de futebol apaixonados pelo seu time e completamente descompromissados com a ética, a verdade ou as regras. E nessas condições sempre perderemos.
Sob a égide do fisiologismo político a máquina pública segue sendo usada para prejuízo dos que mais precisam de seu bom funcionamento. As convicções ideológicas, aquelas mesmas que nos fazem ficar do lado que estamos, são flexibilizadas por conveniência, por cálculos políticos, em troca por poder, recursos e cargos.
“Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos”. Lembra-se?
Esta afirmação constitui-se no princípio da soberania popular e é fundamental no regime democrático. Ela significa que o poder supremo pertence ao povo que o delega a representantes através do voto e está prevista no Artigo 1º, parágrafo único da Constituição Federal de 1988, que também menciona a possibilidade de o povo exercer esse poder diretamente em casos específicos, como plebiscitos e referendos. O que tão raramente nos é ofertado.
O poder saiu de nossas mãos e agora é dos nossos representantes e eles, em grande parte dos casos, não usam esse sagrado poder para o bem do povo e, sim, para atender os interesses de quem os patrocina.
Precisamos transformar essa crise que estamos vivendo em oportunidade. Precisamos buscar caminhos que contribuam para o amadurecimento e não para o adoecimento de nossa democracia. Precisamos definitivamente nos incompatibilizar com essa polarização imbecilizante que se estabeleceu em nossa sociedade.
Ainda é verdade que “o povo unido jamais será vencido”.
Os países que hoje reconhecemos e invejamos por sua maturidade, ética e justiça social não chegaram lá porque as leis criadas pelos legisladores possibilitaram. Mas porque perceberam como sociedade o poder de sua união e compreenderam adequadamente a ideia do bem comum. E, então, redirecionaram os rumos da história e legitimaram no poder pessoas que pudessem representar os interesses, não de parte deles, mas de todos eles. E aí as leis e decretos seguiram o rumo certo.
O caminho é difícil e não pode ser trilhado num final de semana. Exigirá bastante tempo e muitas atitudes. E o começo e a forma como é trilhado exige que, cada um de nós, séria e humildemente revise seus próprios caminhos e perspectivas. Embora desafiador, se outros já o trilharam e com sucesso, nós também podemos.
*Usiel Carneiro de Souza é administrador e teólogo





















