Este foi o valor doado por Ruth Gottesman, professora emérita da Escola de Medicina Albert Einstein, no Bronx. Algo em torno de 4,9 bilhões de reais. Bronx é o distrito mais pobre da cidade de New York. Embora não seja das mais caras, cursar medicina na Albert Einstein está acima das possibilidades financeiras de quase a totalidade de seus alunos: 59 mil dólares por ano.
A doação feita pela Sra. Gottesman foi específica para custear mensalidades de todos os alunos. O valor doado pagará perpetuamente essas mensalidades – cerca de 17 mil anualidades estão pagas!
A doação é apenas um dos benefícios da professora em sua relação com a escola, que já ultrapassa 50 anos. Ao chegar na escola, desenvolveu formas de detecção, avaliação e tratamento de problemas de aprendizagem, diante da situação de alunos que eram dispensados devido às suas dificuldades. Isso mudou a vida de dezenas deles. Mudar a vida de pessoas é algo que já caracterizava a professora.
O valor doado foi deixado para ela por seu marido, o milionário David Sandy Gottesman, com quem foi casada por 72 anos, e que faleceu em setembro de 2022 aos 96 anos. Ela desconhecia a existência dessa fortuna reservada em seu nome. O Sr Gottesman deixou para ela a seguinte instrução: “Faça o que achar certo com isso”. E ela fez o que achou certo!
Atualmente, estima-se que 1% da população detém 43% de toda a riqueza do planeta, isso numa estimativa bastante otimista. Uma quantidade de riqueza impossível de ser usada apenas para o desfrute de seus possuidores. As emissões desse 1% mais rico é maior do que a dos 2/3 da população mundial. Os dados não são precisos, mas nos dão uma ideia das disparidades e distância que separam seres humanos em nosso mundo. Segundo a Oxram Brasil, 2.153 bilionários (0,00003% da população mundial), têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas (60% da população mundial).
Atualmente, fala-se em cobrar mais impostos dos super ricos. Talvez aconteça, e entendo como uma medida não apenas justa, mas necessária. As fortunas não são acumuladas com esforço ou competência apenas dos que as detém ou sem o sacrifício de pessoas que jamais desfrutariam delas.
Para além de uma distribuição mais justa das riquezas, o que apontaria visões bem distintas, nosso mundo precisa de mais generosidade. Mais do que de justiça, o mundo precisa de mais amor. De mais reconhecimento do valor e dignidade da vida humana.
A pobreza deve nos indignar ao ponto de não nos acomodarmos. Deve nos impor olhos que se importam, corações que se entristecem com a miséria do outro, mentes que se ocupam das necessidades e dores alheias em lugar de buscar justificativas para nada fazer.
Voltando à doação da Sra. Gottesman, alguém poderia apontar a idade da benfeitora, 93 anos, para justificar sua atitude de não manter para si a fortuna. Eu prontamente discordo. Um coração insensível e um espírito mesquinho não se arrefecem apenas com o tempo. Ao contrário, tendem a agravarem-se.
Algumas vezes a proximidade da morte pode até nos levar a perguntas como “qual o sentido da minha vida?”, e gerar algumas mudanças. Mas não necessariamente leva pessoas à bondade e generosidade que lhes faltaram ao longo da vida.
Imagino que você que me lê, como eu, não tem uma fortuna para doar. Mas ainda assim podemos ser bons e generosos. Podemos nos indignar com a pobreza e nos inconformar com tantos tendo tão pouco. Podemos agir como pessoas que mudam para melhor a vida de outras. Não precisamos de um bilhão de dólares para isso. Precisamos de um coração sensível e generoso.
Talvez não possamos pagar uma mensalidade que seja de um curso de Medicina para alguém, mas podemos pagar um livro para um estudante. Podemos acrescentar 5 Reais à recompensa de um entregador de lanche. Podemos pagar um pouco mais a alguém cujo serviço vale pouco demais em nossa sociedade. E são muitos! Não precisamos abrir mão do que temos, precisamos apenas abrir mão do egoísmo e incluir o outro em nosso olhar.
A vida dos estudantes da Escola de Medicina Albert Einstein está sendo transformada. Muitos deles vinham lutando com grandes dificuldades e acumulando dívidas com empréstimos para pagar os estudos.
Que sejamos capazes de mudar o dia, ou pelo menos mudar um momento que seja na vida das pessoas que encontrarmos. Certamente, não temos tão pouco que nada possamos fazer!
Para uma leitura da reportagem completa sobre a doação da professora Ruth Gottesman, acesse:https://www.bbc.com/portuguese/articles/c72g4n430k8o





















