*Usiel Carneiro de Souza
No jogo democrático, ter lados diferentes é natural. Mas termos inimigos em lugar de adversários e perder-se no amor ou no ódio por uma legenda ou personagem, é infantilidade. Precisamos avançar e aprender com o que vivemos neste primeiro quarto de século.
Nele, as coisas pioraram bastante, dividindo e enfraquecendo (e talvez, para alguns, aniquilando) a capacidade de síntese diante das teses e antíteses integrantes do processo democrático.
À vista disso, precisamos ter em mente que somos nós os responsáveis por reorientar a história e trabalhar por um novo cenário, mais positivo e produtivo para os interesses públicos. Dependem de nós as mudanças que precisam acontecer.
Não tenhamos dúvida: avançar como sociedade exigirá uma maturidade política que não demonstramos ter até o momento. Mas ainda é tempo.
Devemos colocar em ação nossa capacidade de aprender, de abandonar o orgulho e rejeitar a obtusidade de quem não se permite penetrar por fatos e declaram verdades.
Precisamos desenvolver a capacidade de realizar uma análise mínima das condições sociais e econômicas que envolvem nosso país, fazendo disso referencial que fundamente nossa visão e oriente nosso sagrado direito (transformado em obrigação) de votar.
Precisamos aprender a lidar, minimamente, com dados e informações sobre sociedade e economia. Devemos ter mais que apenas paixão por bandeiras políticas.
Para exemplificar, devemos abdicar da fidelidade característica dos torcedores fanáticos, que tudo justificam sobre seus times enquanto nada reconhecem sobre o outro.
Devemos, como amantes de um jogo bem jogado, reconhecer a melhor estratégia e as melhores jogadas considerando o fim que desejamos. Na vida política o gol deve ser o bem comum.
Uma sociedade mais igualitária, uma economia pujante e que não se descuide da sustentabilidade. Como pessoas sensatas, devemos preferir representantes que cumpram bem o papel político, que saibam representar o povo e não apenas alguns entre o povo, e que trabalhem pelo fim que desejamos.
Apoiar candidatos que apenas fazem cena, cantando as músicas e agitando as bandeiras que nos agradam, alimenta um retrocesso que por fim doerá em todos nós.
A questão não é a camisa que se veste, se verde, amarela, vermelha ou azul, mas as atitudes, valores e posições que se assume como representante de todos os cidadãos e cidadãs, sem excessão!
Quem vota pode escolher quem deseja que o represente. Quem é eleito deve representar toda pessoa circunscrita em sua esfera representativa. Menos que isso é adulterar o mandato.
Neste momento em especial, a busca por um posicionamento político para além dos personagens deve ser um ideal de nossa cidadania. O personagem é um item sem dúvida, mas precisamos desenvolver uma perspectiva mais ampla para um exercício saudável do sufrágio.
Todo personagem terá algo a ser criticado, mas alguns representarão o inaceitável. E estes devem ser prontamente e o quanto antes rejeitados. Mas para tal precisam ser reconhecidos.
Não podemos esperar que alguém passe quatro anos sem nada fazer de concreto e produtivo pela sociedade, para que sejamos uma sociedade mais próspera e justa, e acreditar que num novo mandato fará melhor.
Precisamos desenvolver o hábito de pelo menos verificar o desempenho do representante que escolhermos em sua vida política pregressa. E para isso devemos superar a cegueira produzida pela paixão de torcedores, votando apenas porque o candidato veste certas cores ou rejeitando-o pela mesma razão.
Pensar que tal candidato é a melhor escolha porque é da minha religião ou em razão de sua identidade sexual, por exemplo, é analfabetismo cívico. Pois estes e tantos outros aspectos não são balizadores do caráter de pessoa alguma e por isso não garantem conduta ou determinam competência.
A guerra de narrativas sempre foca em personagens e dedica-se a etiquetar como inaceitável a oposição. O desafio do voto que constrói uma nação exige lucidez, do contrário apenas servirá ao propósito de privilegiar oligarquias e manter status quo de quem sempre se serviu de cargos eletivos em lugar de servir a quem representa.
Precisamos ser capazes de identificar projetos de governo e avaliar se condizem com o que entendemos ser o melhor para nossa sociedade. Devemos nos familiarizar, minimamente, com alguns indicadores e cenários. Devemos ser capazes de julgar com certa segurança se os rumos econômicos e sociais em curso são os desejáveis para a coletividade.
A propósito, tornou-se estratégia política desacreditar indicadores e manipular informações. As narrativas tomaram de assalto a atenção da maioria. Não devemos esperar que os políticos nos digam se tudo vai bem e muito menos seus youtubers de estimação.
Estamos nos tornando uma sociedade com sérias dificuldades em informar-se, em lidar com fatos. Abandonamos nossas fontes comuns. Precisamos voltar a confiar em nossos indicadores oficiais. Abrir mão deles e aceitar narrativas jamais nos dará caminhos seguros.
As principais fontes oficiais de indicadores econômicos e sociais no Brasil são o IBGE, o Banco Central e os ministérios. Os servidores públicos que lá atuam são de carreira e, até que se prove o contrário, trabalham pelo país e não pelos políticos.
Essas instituições realizam a coleta, análise e divulgação periódica dos dados que medem o desempenho econômico e social do país.
Temos ainda indicadores fornecidos por agentes internacionais. Um dos que não podemos ignorar é o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. O IDH foi criado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) que avalia a qualidade de vida de uma população com base em três pilares fundamentais: saúde (expectativa de vida), educação (anos de escolaridade) e renda (padrão de vida a partir da RNB-Renda Nacional Bruta per capita).
O IDH varia de 0 a 1, onde valores mais altos indicam melhor desenvolvimento. Você tem acompanhado o IDH de seu Estado?
A partir de informações seguras poderemos encontrar um lugar comum para decidirmos pelos melhores governantes e representantes, em lugar de agir como torcedores apaixonados de seu partido ou espectro político preferido.
Sem isso seguiremos narrativas que ignoram ou deturpam informações. Minimamente precisamos nos familiarizar com alguns indicadores que estão sempre na mídia e compreender seu significado para que não tenhamos nossa perspectiva cidadã obliterada e nos tornemos manobráveis.
Ouvimos que o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU promovido pela FAO (Food and Agriculture Organization). Sabemos o que significa essa informação? O Mapa da Fome é uma iniciativa que monitora países onde mais de 2,5% da população sofre de subnutrição.
Com a média abaixo de 2,5%, o Brasil está fora do mapa, um resultado atribuído a políticas públicas, programas sociais e combate à pobreza.
Outro exemplo é a dívida pública e a responsabilidade fiscal, ultimamente com recorrência em noticiários e declarações de políticos. A palavra “dívida” é de percepção negativa e a palavra “responsabilidade”, positiva, de pronto.
Mas na vida financeira de um país é preciso ir um pouco mais fundo. A existência de dívida pública não é sinônimo de irresponsabilidade fiscal. Ela pode ou não ser, dependendo de como está sendo gerada e gerida a dívida, ou seja, o que a explica e como está sendo administrada.
Por meio de endividamento, um governo pode financiar projetos importantes sem aumentar imediatamente impostos. Pode estimular o crescimento econômico em períodos enquanto oferece uma alternativa de investimento segura para investidores internos e externos.
Segundo especialistas, a dívida pública é um componente estruturante da economia moderna, funcionando como uma ferramenta de financiamento. É óbvio que ela exige um gerenciamento adequado a fim de se preservar a estabilidade do país.
Que avaliação se pode fazer da dívida publica brasileira neste momento? Esta é uma informação que todo cidadão consciente deve buscar.
Bons cidadãos e bons votantes desenvolvem-se no reconhecimento e compromisso com o bem comum – um conceito fundamental para uma boa cidadania. O “bem comum” refere-se a recursos, serviços e condições que devem ser compartilhados por uma sociedade, procurando garantir que todos os seus membros tenham pleno acesso como forma de se promover o bem-estar coletivo.
Neste sentido. os mais necessitados devem ser mais privilegiados nas políticas públicas adotadas para possibilitar a construção de uma sociedade mais igualitária. Espaços públicos, educação, saúde, segurança, meio ambiente são constituintes do bem comum.
Via de regra os atores políticos são sustentados por grupos de interesse, por núcleos de riqueza e poder. Os partidos naturalmente fazem seus compromissos orientados por interesses e pela relação com esses grupos.
Sem uma população que lute e eleja representantes comprometidos com o bem comum, com o desenvolvimento social, estaremos apenas colaborando para a manutenção do status quo dos mais beneficiados e reduzindo a possibilidade de um pais mais próspero para todos.
O que desejo neste artigo, como cidadão, é salientar o fato de que seremos facilmente manipulados por quem deseja apenas garantir seus próprios interesses ou os interesses dos grupos que pagam suas campanhas para que defendam seus objetivos privados.
O sucesso dessa estratégica depende do grau de desinformação que adere à sociedade. Cidadãos conscientes e bem informados são um patrimônio precioso de uma nação. Cidadãos desinteressados ou capturados por bandeiras são um recurso muito útil a quem assalta o país.
Pergunto-me: por que políticos lutam para impor ensino religioso em escolas e nada fazem para levar formação política e cidadã aos nossos estudantes? Por que demonizam a educação sexual e superficializam assuntos importantes como o controle de drogas e a lei que garante o direito ao aborto num país tão afetado negativamente por estes temas?
Nada disso é um acaso. Uma sociedade imatura é um campo fértil para maus políticos e abusos de poder.
Ao longo deste ano teremos o privilégio de eleger mais uma vez representantes e entre eles o presidente da república.
Informe-se.
Forme-se.
Busque dados e julgue fontes.
Escolha e vote.
Não anule seu voto ou vote em branco. Responsabilize-se.
Não escolher qualquer dos candidatos não é muito melhor do que escolher o pior dos candidatos.
Não caia na simplória falácia do nós contra eles, do cristianismo contra o comunismo, da família tradicional contra os deturpadores da moral. Essas são posições que empobrecem nossa cidadania e nosso voto por consequência.
Escolha buscando o caminho que nos dará uma nação mais próspera, igualitária e onde todos tenham direitos, segurança e liberdade. O Brasil agradece!
*Usiel Carneiro de Souza é administrador, palestrante e pastor batista
























