*Erly Euzebio dos Anjos
Com a queima de mais de 30 ônibus e um vagão de trem por “milicianos” recentemente na zona oeste do Rio de Janeiro, impedindo o direito de ir e vir de centenas de trabalhadores que voltavam para casa, muito se falou sobre a participação de milícias no quadro já caótico da insegurança pública carioca.
Quem são os milicianos, como enfrentá-los e quais os caminhos para inibir suas ações violentas nas comunidades, municípios e em outros estados? São questionamentos de pronto quando se pensa na magnitude de tal evento terrorista se espalhar, como já vem ocorrendo.
É preciso analisar não só partir deste ato particular e concreto, mas ir até ao geral e abstrato. Para se conhecer as mediações e articulações existentes. E depois, retornar às peculiaridades de tal evento, com mais informação e conhecimentos sobre o que vem ocorrendo.
Somente assim é possível pensar em ações de curto, a médio e longo prazos e encontrar possíveis soluções.
Existe de fato uma relação, digamos, dialética entre a ordem e a desordem numa sociedade em constante transformação. Não é prudente generalizar, pois cada estado e região tem suas peculiaridades, que ensejam ser estudadas e conhecidas suas inter-relações e das teias construídas entre o legal, o legítimo e as ilegalidades como no caso das milícias no Rio de Janeiro.
Isso fica muito claro no livro de Bruno Paes Manso, de título sugestivo: “A República das Milícias – Dos esquadrões da morte à era bolsonaro” (São Paulo: Todavia, 2020). A serie documental ‘Vale o Escrito’, que se inicia na Globoplay sobre “o resgate histórico que dominam contravenção e sustentam o Carnaval carioca”, fornece pistas na compreensão desta questão social em pauta.
Em artigo anterior tentei, de forma sintética, falar sobre a “desconstrução do bem contra o mal”, do “nós” contra “eles” e da falácia de se ver o mundo em termos bipolares, sem mediações com um contexto mais abrangente e historicamente construído.
Vê-se que a análise do imediato é parcial quando não se examina a trajetória de eventos e suas contradições construídas ao longo do tempo. Ainda mais importante: sem um diagnóstico preciso e completo (da queima dos ônibus, por exemplo) não se pode contar com medidas reparadoras a curto prazo e nem duradouras, num médio e a longo prazo, que resultem em alterações de rota da violência de modo geral.
Penas mais longas de encarceramento e a demonização de certos grupos ou de áreas geográficas só servem para aumentar o preconceito desta já desgastada visão dual e contrastante. A rotulação e fulanização de lideranças criminosas, conforme sugeridas pelo governador carioca, são também inócuas.
Veja o dilema em que se encontra com as atrocidades decorrente da presente guerra entre Israel e o Hamas. Optando pela via repressiva, como é o caso, só há uma saída: a eliminação brutal de um povo – os Palestinos – com graves consequências e a impossibilidade de uma solução viável. A outra opção requer conversas bilaterais, concessões e pactos em que ambos terão que ceder. O resultado, porém, será mais qualitativo e sustentável.
Ou se busca compreender o fenômeno em sua especificidade e desvendar as teias de articulações do mundo da ordem legal, institucional com as ilegalidades que vem se moldando ao longo de tempo, ou se opta pela eliminação e repressão do outro que não garante solução e pacificação.
Milícias também não existem num vácuo. No caso do Rio de Janeiro, elas surgiram na omissão do Estado, nas articulações ilícitas com o tráfico de drogas e de armas, consolidando territórios, cobrando taxas por uma suposta segurança comunitária e prestação de serviços, tais como: gás encanado, água, tv a cabo e até estacionamento. Ao mesmo tempo que se articularam com as instituições sociais, com instâncias jurídicas, militares e com o mundo político.
O livro de Paes Manso não deixa dúvidas das conexões sólidas entre a falta de planejamento urbano e do Estado ou da convivência conflituosa entre o asfalto e os morros desde os anos 50, com os anos de chumbo na ditadura militar e os esquadrões da morte, mas que se acirraram neste último governo. A participação de paramilitares e políticos em uma série de eventos do cenário violento vigente deste que se convencionou chamar de milícias faz parte de um enigma a ser decifrado. Ou seremos todos engolidos.
*Erly dos Anjos é sociólogo, professor aposentado da UFES


























