
Mais de 4 mil caminhoneiros de 130 empresas suspenderam o transporte de grãos e outros produtos de agronegócio em Mato Groso, principalmente nas regiões de Sinop e Sorriso, para pressionar o reajuste do preço do frete da soja e do milho. O movimento pode colapsar os negócios do setor e gerar grandes prejuízos não apenas aos produtores, mas também à indústria e impactar a balança comercial brasileira, vindo a impactar também preços para o consumidor final.
Essa paralisação, que começou na última segunda-feira (8), utiliza a mesma estratégia utilizada por caminhoneiros autônomos que atuam no Porto de Santos (SP). No início do mês, a categoria decidiu cruzar os braços por causa da alta dos preços dos combustíveis e do baixo valor do frete.
Mas não houve bloqueios aparentes nas áreas de acesso aos terminais portuários, com os autônomos se mantendo sem operar, o que levou a praticamente uma semana sem movimento de caminhões nos maiores terminais de contêineres do país. Foram também relatadas ameaças a empresas que disseram que queriam operar na região.
FERROVIAS
A dependência do modal rodoviário para o transporte de cargas no País, combinada com os constantes desequilíbrios nas planilhas de custos de empresas e transportadores autônomos provocados pela volatilidade dos preços de combustíveis, especialmente impactados por questões de mercado internacional, demonstra a urgente necessidade de o Brasil implementar os projetos de construção de ferrovias, mediante a facilitação do novo marco regulatório, permitindo o investimento privado mediante simples autorizações, além de expandir o transporte de cabotagem e criar também fontes alternativas de energia, explorando modos mais econômicos, como eólico e solar.
O Ministério da Infraestrutura já analisa 27 solicitações de autorização para construção de novas ferrovias no país. A informação foi dada pelo diretor do Departamento de Ferrovias do Ministério da Infraestrutura, Ismael Trinks, durante Fórum Marco Ferroviário, realizado ao longo da última quinta-feira, 11, promovido pela Conceito Seminários, do qual participou o presidente da Petrocity Ferrovias, que apresentou três dos 27 pedidos ao Minfra, sendo dois diretamente ligados ao Espírito Santo e outro num trecho entre Minas e Goiás.

A maior ferrovia projetada pelo setor privado para o Brasil, dentro da nova modalidade de autorização, com a construção por conta e risco do empreendedor, é a Estrada de Ferro Juscelino Kubtischek, que liga Barra de São Francisco, maior produtor de rochas ornamentais do País, a Brasília, com mais de 1.100 km, atravessando os vales do Jequitinhonha e Mucuri, no Nordeste de Minas, e o Norte de MInas. A Petrocity ainda tem o projeto da Estrada de Ferro Minas- Espírito Santo, ligando o Vale do Aço ao futuro porto de São Mateus, no litoral Norte capixaba, e a do Planalto, ligando Unaí (MG) a Campos Verdes (GO), grandes produtores de grãos do cerrado.
No encontro do último dia 11, os servidores do Ministério da Infraestrutura fizeram forte defesa da proposta de autorizações ferroviárias que está presente na Medida Provisória 1.065 e no PL 3.754/2021, em avaliação pela Câmara dos Deputados após aprovação pelo Senado, agora sob relatoria do deputado Zé Vitor (PL-MG).
Outro projeto que beneficia o Espírito Santo foi apresentado pela Macro Desenvolvimento Ltda: uma ferrovia ligando Presidente Kennedy, no litoral Sul a Sete Lagoas (MG). Na última semana, a Macro apresentou um novo pedido de autorização para construir outro trecho, ligando Sete Lagoas (MG) a Anápolis (GO).
Os 27 pedidos de autorizações apresentados ao Ministério totalizam 8,4km de ferrovias, num total de R$ 117 bilhões a serem investidos pela iniciativa privada nos próximos 10 anos. O Minfra já deu aval para os estudos de 25 deles – dentre eles, os três da Petrocity Ferrovias.
“Barra de São Francisco vai se tornar o maior hub logístico do País”, disse o presidente da Petrocity Ferrovias, José Roberto Barbosa da Silva, que tem prevista sua presença na cidade no dia 21 de dezembro para a realização de um Fórum Logístico em que apresentará os estudos das duas ferrovias, bem como dos impactos que elas causarão na região Noroeste do Espírito Santo e Leste de Minas. José Roberto presidente também a Abelap – Associação Brasileira de Executivos de Logística e Atividades Portuárias.
Para a cidade de Barra de São Francisco está prevista a construção de uma grande Unidade de Transbordo e Armazenagem de Cargas (UTAC), com porto seco alfandegado, para transferência de cargas entre a EFMES e a EFJK. O prefeito Enivaldo dos Anjos (PSD) tem acompanhado o tema e mandou um representante participar de uma reunião na última segunda (8) em Governador Valadares. Ele também lidera o movimento pela duplicação da BR 381, entre São Mateus e Governador Valadares, formando o Corredor Logístico Rota 381.
APOIO
No movimento de paralisação no Mato Grosso, os empresários do transporte rodoviário buscam chamar a atenção das tradings do agronegócio para o aumento considerável dos custos, nos últimos meses, principalmente com diesel e pneus. O objetivo é atualizar os valores dos fretes.
Em entrevista à rádio de Mato Grosso realizada na última terça-feira (9), o empresário Rafael Elias Rovaris, que trabalha em parceria com a transportadora Realeza, afirmou que o número de caminhões parados já chega a quatro mil.
“São 130 proprietários de caminhões em Sorriso e Sinop, além de outros estados que possuem caminhões aqui, que também aderiram. Grandes empresas de Rondonópolis também já deram a palavra que estão recolhendo os caminhões e vão aguardar a melhora dos preços. Só em Sorriso devemos ter algo em torno de quatro mil caminhões que aderiram a essa ideia. Chegamos à conclusão de que não tem mais condição”, disse Rovaris.
Para evitar os bloqueios, o governo tem feito monitoramento e operações prévias. Também tem obtido decisões judiciais contrárias aos bloqueios, como elevados valores de multas para quem participar desse tipo de ato. No movimento do início deste mês, o governo chegou a obter 35 ações judiciais para impedir bloqueios.
A ação dos autônomos em Santos (SP) forçou um acordo com as empresas. Na última segunda-feira (8), o movimento foi encerrado após uma assembleia realizada na sede do Sintraport (Sindicato dos Operadores e Trabalhadores Portuários) de Santos e contou com dezenas de caminhoneiros e representantes de 68 transportadoras. Lá, foi realizado um acordo comercial para garantir, entre outras reivindicações, o piso mínimo de frete, mais um adicional de 10%.
A paralisação em Sinop vai ao encontro do que defendeu o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, na semana antes da última paralisação, sobre o repasse de custo aos preços do frete. Na ocasião, o líder da pasta afirmou que, “se a farinha de trigo sobe, aumenta o valor do pão francês”.
Ele defendeu que os caminhoneiros devem se organizar para forçar os contratadores a pagarem valores adequados para o trabalho realizado. Freitas citou especificamente os transportadores de grãos como sendo desorganizados e disse que, por isso, se submetiam a fretes muito baixos.
O movimento da região do Mato Grosso conta com o apoio de entidades como CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos) e CNTRC (Conselho Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas). As duas defendem que cada segmento tem que negociar separadamente com seus contratantes, sendo a paralisação o último recurso da categoria.
À Agência iNFRA, o diretor financeiro da CNTRC, Luis Fernando Galvão, disse que a iniciativa dos caminhoneiros do Mato Grosso tem todo o apoio da entidade. Também afirmou que novas categorias poderão aderir ao movimento. “Acredito que esse movimento ganhará mais força e adesão nos próximos dias”, disse Galvão.
Quem também demonstrou apoio às reivindicações em Sinop foi o coordenador da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Caminhoneiro Autônomo e Celetista, deputado Nereu Crispim (PSL-RS). O parlamentar afirmou que o acordo de Santos trouxe uma vitória moral para a categoria, uma vez que o governo demonstrou receio ao entrar com ações judiciais para impedir as paralisações.
Crispim disse ainda que uma nova reunião da categoria deverá acontecer em dezembro. A ideia é fazer um balanço de todas as ações realizadas desde a reunião de Brasília, em setembro, que definiu uma pauta única para a categoria.
De acordo com o diretor-executivo do Movimento Pró-Logística de Mato Grosso, Edeon Vaz Ferreira, a principal preocupação para os produtores é o repasse de custos. Além disso, afirmou que o movimento em Sinop pode gerar processos às empresas transportadoras. Isso porque os contratos de translado são firmados no início do ano.
“Eles estão fazendo esse movimento para forçar as tradings a aumentar os valores. Os contratos são feitos com um ano de antecipação. O que está sendo transportado agora foi contratado no ano passado. Ou seja, eles têm que colocar cláusulas de proteção. O que o produtor não quer é pagar a conta depois com aumentos abusivos. Não sei o que eles irão fazer, mas acredito que esse locaute vai gerar processos na Justiça”, afirmou Ferreira.
*Com Tales Silveira e Dimmi Amora, do Minfra


























