Constituição do Gabinete de Gestão Integrada de Segurança Pública, criação do Conselho Municipal de Segurança, ativação das câmaras de videomonitoramento e sua integração ao cerco eletrônico do Estado e instalação do Centro de Referência da Juventude (CRJ) foram os principais indicativos que saíram do fórum promovido na noite de sexta-feira, 29, pelo portal tribunanorteleste.com.br em Sooretama, a 150km de Vitória, na região cortada pela BR 101-Norte.
As sugestões foram dadas pelo secretário de Estado de Economia e Planejamento, Álvaro Duboc, gestor do programa Estado Presente, ao palestrar no encerramento do Fórum Segurança Pública Feita por Todos, Para Todos, que reuniu autoridades e populares de forma como há muito tempo não se via, conforme os coordenadores locais.
Dezenas de pessoas participaram do evento no Centro de Acolhimento Maria Imaculada, cedido pela Paróquia Cristo Rei. O centro, localizado no Parque São Jorge, acolhe mais de 80 crianças em situação de vulnerabilidade social, com idade entre 6 e 11 anos. Elas podem ficar no centro até os 14 anos, aprendendo informática, artesanato, musicalização, dentre outras atividades.
Além do secretário de Estado, representando o Executivo estadual, participaram os deputados estaduais Lucas Scaramussa e Alan Ferreira, que foi eleito por Cachoeiro, mas é natural de Sooretama (um terceiro deputado, Mazinho dos Anjos, membro da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa, mandou representante). O prefeito Alessandro Broedel não foi – o Executivo municipal foi representado pelo vice-prefeito Fernando Camileti.

Do Legislativo municipal, estavam os vereadores Paulinho do Gás, Tarcísio Bobbio, Klysmamm Marcelino, Aldemir Frederico (Lobão) e o presidente da Câmara, João Paulo da Silva. O evento teve amplo apoio, envolvendo Prefeitura, Câmara, OAB-ES, o progresso Estado Presente do Governo do ES, Polícia Militar, Polícia Civil, Paróquia Cristo Rei e a Assembleia Legislativa.
GESTÃO INTEGRADA
O secretário Duboc fez um breve relato do histórico da violência no Estado e de seu controle a partir de 2011, quando foi criado o Estado Presente com ações tanto no sistema policial quanto no social preventivo. E citou que o aprisionamento não resolve a violência. “A prisão é para casos extremos, precisamos de penas alternativas para aqueles que não oferecem risco à sociedade”, acentuou.
Alvaro Duboc incentivou à criação, com a maior brevidade possível, do Conselho Municipal de Segurança e colocou sua pasta à disposição para colaborar.
Também sugeriu que o município integre o cerco eletrônico da Secretaria de Segurança e ouviu que, apesar de instaladas, das pouco mais de 20 câmaras do município, apenas duas estão funcionando, o que dificulta a investigação de crimes pela Polícia Civil por falta de registros de imagens.
O gestor do Estado Presente explicou sobre o Gabinete de Gestão Integrada Municipal, que é um fórum deliberativo e executivo composto por representantes do poder público das diversas esferas e por representantes das diferentes forças de segurança publica com atuação no Município.
O secretário incentivou o poder público municipal a se articular para envolver em projetos socais as empresas que estão chegando para o município. “O governo do Estado tem incentivado a vinda de empresas para os municípios e a municipalidade precisa dessa articulação de participação em suas necessidades”, disse o secretário.
Quanto ao CRJ, é um dos mais bem sucedidos projetos desenvolvidos pelo Programa Estado Presente, já implantado em diferentes comunidades da Grande Vitória e que começa a ser levado ao interior, através da Secretaria de Direitos Humanos.
A titular da pasta de Direitos Humanos, Nara Borgo, não participou do fórum em Sooretama por ter uma agenda no mesmo dia num evento em Salvador (BA) promovido pelo Banco Mundial, financiador dos Centros de Referência da Juventude implantados no Espírito Santo e que já foram destaque no Fantástico, da Rede Globo.

APOLITICO
O evento, que teve expressiva participação de lideranças e populares, e de pastores, foi aberto com a benção do padre Gabriel Stella, da Paróquia Cristo Rei.

Na sequência, o coordenador local, o microempresário Edson Isidoro, falou do caráter apolotíco do fórum, fazendo um breve resumo com agradecimentos aos apoiadores e à disposição das autoridades de estarem ali para lançar “sementes para o futuro”.
Isidoro também salientou a apatia da sociedade local em relação à ações de coletividade. “Cada um está vivendo por si, não temos uma única associação de bairro e nem mesmo organização empresarial, como CDL ou Associação Comercial. Isso é muito ruim”, disse. “Estamos precisando do básico, só isso nesse momento”.
O major Hebert Barbosa representou o comando do 12o Batalhão da Polícia Militar e falou sobre o trabalho da corporação, que também estava presente com os integrantes do pelotão destacado de Sooretama
O jornalista José Caldas da Costa, diretor do portal tribunanorteleste.com.br, falou sobre a motivação para a realização do evento. “Vimos acompanhando essas alterações de rotinas em nossas comunidades há muito tempo e o caso de Sooretama sempre nos intrigou. Quando ocorreu o fato com esses três meninos – Cauã, Wellington e Carlos Henrique- ficamos muito inquietos. Em conversa com o Edson Isidoro, colocamos o site como parceiro para esse momento”, explicou.

O jornalista e geógrafo também salientou que, todas as vezes que questionava sobre a recorrência da morte de adolescentes no município ouvia justificativa de que estavam envolvidos com o crime. “Mas nesse caso, os três meninos eram inocentes, sem nenhum envolvimento e decidimos que esse seria nosso grito: a morte de Cauã, Wellington e Carlos não há de cair no esquecimento”, salientou.
Em seguida, chamou à frente para breve relato o pai de Wellington, o pedreiro Eliomar, e o irmão, Wesley, que foi a última pessoa da família a ver o adolescente vivo. Depois do encontro, os três meninos desapareceram. Seus corpos foram encontrados enterrados numa plantação de eucalipto.
A Polícia Civil descobriu que foram sequestrados, torturados e mortos por traficantes do bairro Baixada. Um dos acusados, de 20 anos, foi cercado e preso por polícias militares, dias depois, após troca de tiros quando tentou, em companhia de um comparsa mais velhinho, retornar à comunidade. Outro fugiu, mas acabou assassinado na última semana no bairro Aeroporto, em Nova Venécia.
Curiosamente, após o sequestro e morte dos meninos e da prisão desse elemento, Sooretama vive uma período de relativa tranquilidade, com redução de todas as ocorrências policiais, de crimes contra a vida e de tiroteios. As forças de segurança passaram a ter ação contínua no município, com seguidas apreensões de armas e drogas.
PALESTRANTES
Apoiadora do evento, Alcidia Pereira de Paula Souza, presidente da 3a Subseção da OAB-ES (Linhares, Rio Bananal e Sooretama) salientou, em sua palestra, a importância da educação para melhorar as condições dos jovens, um tom que também foi seguido pelo deputado Lucas Scaramussa.
O delegado regional Fabrício Lucindo elogiou o número de participantes do evento e mencionou que em 2022 o município de Sooretama teve 70 mortes por 100 mil habitantes, “um índice sete vezes maior do que o admitido pelas Nações Unidas, que é de 10 por 100 mil”.
O professor e cientista social fez uma palestra objetiva sobre a gênese da violência no Brasil e no Estado. E fez um recorte para o vale do rio Doce para mencionar que Dom João VI quando chegou ao Brasil em 1808 decretou uma guerra de dizimação aos indígenas da região, reverenciou o logo legado de contestação das terras acima do rio Doce entre o ES, Minas Gerais e Bahia.
Ao comparar nosso processo de construção histórica com o norte-americano e o francês z mencionou as diferenças e o atraso brasileiro, ppr exemplo, na abolição da escravatura. E pediu mais paciência. “Tudo na nossa história é muito recente. Precisamos ter paciência e não desistir de seguir em frente. Reuniões como esta em que estamos me deixam mais animados”, acentuou.
No enceramento, após a fala do secretário Álvaro Duboc, o coordenador, Edson Isidoro, mencionou a importância de se aproveitar a presença do Estado para que a sociedade local se organize e reivindique seus direitos. (Da Redação)

























