A Comissão de Educação da Assembleia Legislativa (Ales) reuniu-se extraordinariamente em sessão híbrida, a partir do Plenário Dirceu Cardoso, na última quinta-feira, 8, para debater com representantes dos professores a chacina ocorrida em novembro último em duas escolas de Aracruz. Os participantes enfocaram a violência, a segurança no ambiente escolar, medidas de assistência às vítimas e ações preventivas necessárias.
O atentado foi praticado na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Primo Bitti e no Centro Educacional Praia de Coqueiral (CEPC), ambas as instituições situadas no Bairro Coqueiral, em Aracruz, fazendo 16 vítimas, sendo quatro mortes. Durante a reunião, foi cumprido um minuto de silêncio em memória às vítimas da tragédia.

Deputados
Bruno Lamas (PSB), presidente da Comissão de Educação, agradeceu a contribuição dada pelos professores e manifestou sua indignação diante do crime. Também considerou que o adolescente teve ambiente para premeditar o crime.
“O incentivo ao uso de armas não cabe numa sociedade civil, não resolve nada e o Brasil passa por momentos difíceis de extremismos. A arma era do pai, a roupa era do pai, a convivência era o lar, a família, quem ensinou aquele adolescente a atirar foi o pai, que é militar. Esse país é um país de leis frouxas, de impunidade, de incentivo à política do ódio”, finalizou o deputado.
O deputado Sergio Majeski (PSDB) reiterou suas falas durante as sessões ordinárias e a respeito das escolas que já visitou durante seus dois mandatos na Ales. Ele reafirmou que não existe assistência para a saúde mental dos professores e que as escolas precisam de apoio multidisciplinar, tanto para os professores como para os alunos.

Cultura da paz
A diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes), Noêmia Simonassi, disse que já foi feita reunião com a Secretaria de Estado da Educação (Sedu), quando foram apresentadas as propostas de apoio às famílias das vítimas do atentado em Aracruz. A solicitação também foi de apoio multidisciplinar, reunindo profissionais da saúde, psicólogos e outras áreas, permanentemente.
Simonassi informou que as aulas foram suspensas nas duas escolas até o final do ano letivo. Reuniões também aconteceram com o Ministério Público Estadual (MPES) e com a Secretaria Municipal de Educação de Aracruz com a mesma pauta envolvendo a violência e a segurança.
Outra solicitação apresentada foi para aumentar a vigilância nas escolas e entorno. Ela afirmou que não se pode culpar o jovem que cometeu o crime pela situação geral. Disse que tanto o jovem quanto a família precisam de tratamento psicológico e ressaltou a necessidade de trabalhar a cultura da paz.
“Não é aumentando pessoas armadas dentro da escola, não é aumentando os muros da escola, não é gradeando toda a escola que nós vamos diminuir a violência. A violência se desenvolveu nos últimos anos no País, explodiu de forma assustadora. Nós precisamos trabalhar a cultura da paz com equipes multidisciplinares. Porque o nosso país está armado. Onde se coloca uma arma tira-se o amor e coloca-se o ódio. Não podemos culpar esse jovem por essa situação. De onde vem todo esse ódio?”, indagou a professora.
Investigação
Outro diretor do Sindiupes, Gean Carlos Nunes de Jesus, relatou a consternação das famílias atingidas e pediu ao Ministério Público Federal (MPF) que investigue a ação do adolescente autor do ataque.
“Que o MPF investigue se esse adolescente fazia parte de uma rede maior do que ele, uma rede que insiste em trazer o mal, o passado, para nossa realidade do século 21. E para o secretário estadual da Educação, Vitor de ngelo, para que convoque o Fórum Estadual da Educação para debater este e outros temas tão caros para a nossa educação capixaba”, reivindicou.
Grupo de trabalho
A professora e diretora do Sindiupes Milene da Silva Weck, que é moradora de Aracruz, manifestou seu pesar e sentimento às vítimas do massacre. Ela relatou a reação nas redes sociais, a indignação e pedidos de providências contra esse crime.
Milene Weck propôs que seja criado um grupo de trabalho, comissão intersetorial ou interinstitucional, com ampla participação para tratar da questão:
“É fundamental trabalhar uma cultura de paz. Mas trabalhar uma cultura de paz não é esquecer o que ocorreu, não é reduzir a gravidade e profundidade desse crime. Analisar também pelo viés psiquiátrico ou psicológico o massacre ocorrido em Aracruz é reforçar o estigma de transtornos mentais e agravar o risco de outros ataques e outras manifestações que continuam acontecendo. Há uma lacuna com relação ao debate com a sociedade civil organizada para que as ações sejam definidas a partir de uma construção coletiva com ampla escuta e participação, e não apenas com decisões governamentais”, ponderou.
Tragédia anunciada
O membro da Rede Comunica Educação professor Fabio Amorim afirmou que o ataque de Aracruz é uma tragédia anunciada. “Isso não é um caso isolado. Estamos vivendo um período já longo de destituição do papel do professor na escola, da negação do conhecimento e da ciência. Nós precisamos tirar da educação algumas culpabilizações. Quando se fala da violência escolar, parece que ela saiu da escola, mas, ao contrário, ela entrou na escola. É uma violência de uma sociedade adoecida pela narrativa de ódio, pela negação da ciência, pela negação do conhecimento e do ataque a nossa liberdade de cátedra”, observou.
O professor quer que a Assembleia e outras Casas de leis do País respondam aos ataques que acontecem dentro dessas instituições com discursos disseminando o ódio. “Falas discriminatórias, ofensivas e violentas que legitimam essa violência que acarretou mais um fato”, cobrou Amorim.
Também estiveram presentes à reunião e fizeram uso da fala a vice-presidente da Associação de Pais de Alunos do Espírito Santo (Assopaes), professora Euci Lobão Medeiros; o secretário de Educação do Município de Anchieta e membro da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), professor Carlos Ricardo Balbino; professor da rede pública João Paulo; e a militante Andreia Cristina.
A chacina
Durante o ataque realizado nas duas escolas de Aracruz, no último dia 25 de novembro, foram assassinadas a aluna Selena Sagrillo Zuccolotto, de 12 anos, e as professoras Maria da Penha Pereira de Melo Banhos, 48 anos; Cybelle Passos Bezerra, 45 anos; e Flávia Amboss Merçon Leonardo, de 38 anos. Foram feridas e sobreviveram ao ataque outras 12 pessoas.
Conforme o juiz da Vara de Infância e Juventude de Aracruz, Felipe Leitão Gomes, o adolescente de 16 anos responsável pelo crime foi influenciado pelo ódio e por ideologia nazista. A declaração do magistrado toma por base o material apreendido na residência do jovem. O assassino, condenado a três anos de internação, alegou que cometeu os crimes por ter sofrido bullying na escola. (Da Redação com Webales)





















