Por Vitor Vogas*
Casamento celebrado na delegacia não costuma acabar bem. O do partido Avante com Audifax foi assim nesta eleição estadual. Na noite desta terça-feira, 27, em um desfecho previsível, partido e candidato a governador se divorciaram de maneira nem um pouco amigável, com direito a cônjuge se dizendo enganado e acusações sobre quebra de acordos pré-nupciais.
O presidente estadual do Avante, Marcel Carone, convocou uma coletiva de imprensa para dizer que ele mesmo, pessoalmente, e o partido, politicamente, romperam com o ex-prefeito da Serra e agora, a cinco dias da votação no próximo domingo, apoiam a reeleição de Renato Casagrande (PSB). Marcel chamou Audifax de “covarde”, disse que o ex-prefeito é cheio de “sambarilove” (bordão do personagem Armando Volta, da “Escolinha do Professor Raimundo”) e que deixou de “merecer” o apoio do Avante. “Ele literalmente só quis usar o Avante.” Audifax preferiu não comentar.
Na prática, no “Jogo da Vida Eleitoral”, o Avante no Espírito Santo volta para o ponto de partida: ao lado de Casagrande, onde estava até princípios de junho.
O rompimento só tem efeito político e nenhuma consequência legal. Oficialmente, o Avante continua pertencendo à coligação majoritária liderada por Audifax, da qual também fazem parte a federação Rede/PSOL e o Solidariedade.
O candidato a governador poderá seguir se valendo dos 9 segundos de tempo de TV e rádio, por bloco, até o fim da exibição do horário eleitoral gratuito, na próxima sexta-feira (30). Mas, segundo Marcel Carone, agora isso é tudo o que resta do Avante para Audifax. “E ele só permanece com isso porque a legislação não me permite tirar dele.”
O pivô involuntário da discórdia é o pastor e influenciador digital Nelson Junior, candidato ao Senado pelo Avante (tendo o próprio Marcel como primeiro suplente). Formalmente, o partido de Nelson está na coligação de Audifax ao governo estadual, mas Nelson é um candidato isolado ao Senado (ou seja, não tem o apoio nem do partido de Audifax nem das outras siglas que integram essa coligação).
Desde o início, era muito evidente, para quem quisesse ver, que a aliança do Avante com Audifax estava desequilibrada e que o acordo, no fim das contas, havia sido péssimo para Nelson, privando-lhe de tempo de TV e rádio e minando suas chances de exposição nos meios de comunicação de massa.
Para se ter uma ideia, no horário eleitoral gratuito, Nelson só teve direito aos 9 segundos do Avante a cada bloco de dez minutos, enquanto Audifax pôde utilizar 59 segundos (incluindo os 9 do Avante). Para o pastor, só dava tempo praticamente de dizer “Vem com Nelson”. Mas pouca gente realmente foi.
Apesar do evidente mau negócio para Nelson, ele e Marcel Carone estiveram ao lado de Audifax, no dia 13 de agosto, na coletiva de imprensa em que foi anunciada a coligação, tendo ainda a Tenente Andresa (SD) como candidata a vice-governadora. Na ocasião, em clima de lua de mel (e apesar do desequilíbrio em desfavor de Nelson), Audifax assegurou que o pastor era seu candidato a senador e que faria campanha para ele, incluindo material casado.
Isso em momento algum aconteceu, conforme as palavras de Marcel Carone agora. Segundo o dirigente estadual do Avante, Audifax não cumpriu acordos firmados com eles, em momento algum fez campanha de verdade para Nelson e, ao contrário, trabalhou para matar a candidatura a senador do pastor outsider. “O sistema, através do Audifax, matou a candidatura de Nelson”.
Nem sequer os prometidos materiais casados (mostrando os dois candidatos, lado a lado), saíram do campo da promessa, ajunta Marcel. “Fizeram pro Nelson um material genérico e em pequena quantidade.”
O dirigente ainda disse sentir-se enganado por Audifax. Conforme ele agora concluiu, o ex-prefeito “só usou o Avante” para conseguir mais tempo de propaganda de TV e rádio, sem jamais ter tido nenhum compromisso real em relação à candidatura de Nelson para o Senado. Não houve reciprocidade.
“Por isso, agora estou voltando para o meu clube do coração: chama-se Renato Casagrande”, completou Marcel.
Nelson, segundo Marcel, também não vota mais em Audifax. O candidato a senador não atendeu à coluna.
Entenda a treta
Até o início de junho, o Avante estava integrado ao governo Casagrande. O próprio Marcel Carone ocupava um cargo comissionado na Casa Civil. Amigavelmente, ele foi exonerado. O Avante nunca escondeu que seu grande projeto para esta eleição no Espírito Santo era o chamado “Projeto Nelson Junior” para o Senado.
Livre no mercado, o partido começou a flertar com outros pré-candidatos a governador, como Erick Musso (Republicanos) e Felipe Rigoni (União Brasil). Os dois àquela altura se diziam postulantes ao Palácio Anchieta. O anúncio da aliança com Rigoni já estava engatilhado. Mas Audifax foi mais rápido no gatilho.
Dois dias antes, antecipando-se ao anúncio previsto pela direção local do Avante, o ex-prefeito fez um movimento que bloqueou o peão de Nelson no tabuleiro de xadrez eleitoral: sua assessoria anunciou que, na verdade, o Avante já tinha compromisso de apoiar a sua candidatura a governador, a partir de um acordo costurado pessoalmente por Audifax desde fins de março com o presidente nacional do partido, o deputado federal Luís Tibé, de Minas Gerais.
O acordo de Audifax foi feito por cima das cabeças de Nelson e Marcel, que de repente descobriram-se amarrados a Audifax. Eles ficaram sabendo com a imprensa.
Num primeiro momento, ainda sob o impacto da revelação, a primeira reação do “mentor” de Nelson, o empresário Aldeci Carvalho, foi de negação: à coluna, ele chegou a dizer que se recusava a crer que Audifax estivesse sabendo daquilo. É óbvio que estava: ele conduziu tudo.
Xeque-mate eleitoral
Com um nó tático, Audifax amarrou o Avante a ele. Sem saída, Nelson, Marcel e Aldeci foram então fazer a única coisa que lhes restava: buscar o melhor entendimento com Audifax. Estar na coligação do redista nunca foi a vontade deles. Mas tiveram que engolir e aceitar. Naqueles termos acima detalhados.
Acreditaram nas promessas de pré-campanha e embarcaram. Agora se arrependeram.
O resumo da história para mim? De um lado, sobrou esperteza política, com direito a certa truculência e atropelamento de dirigentes locais de outra agremiação; do outro, sobrou amadorismo político.
E, diferentemente do que pode ter indicado aquela eleição muito atípica de quatro anos atrás, política não é para amadores.
*Vitor Vogas é jornalista político e escreve uma coluna no site ES 360.



























