Peter Brian Medawar — filho de mãe britânica e pai libanês —, nasceu em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, em 28 de fevereiro de 1915, onde passou os primeiros anos, antes de se mudar com a família para a Inglaterra, quando iniciou os estudos e se interessou pela área científica.
Vivendo em um país do Primeiro Mundo, com grandes investimentos em Pesquisa, Educação e Cultura, ele “se especializou nos estudos do funcionamento do sistema imunológico, especialmente no que diz respeito à aceitação e rejeição de transplantes de órgãos”.
E, ao desenvolver uma parceria com o australiano Frank Macfarlane Burnet, ambos revolucionaram os conceitos da “tolerância imunológica adquirida”, e, consequentemente, receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1960.
Segundo a Academia Sueca, “Medawar e Burnet demonstraram que, ao expor um organismo a certos antígenos durante o estágio inicial de desenvolvimento, o sistema imunológico poderia aprender a reconhecer essas substâncias como parte do próprio corpo, evitando assim ataques contra elas”.
Peter Brian Medawar foi professor na University of Birmingham e da University College London, na Inglaterra, e a sua trajetória acadêmica e científica foi marcada por uma série de descobertas, e, também, se destacou “por sua habilidade em comunicar ciência ao público leigo”, além disso publicou vários livros, dentre eles “The Uniqueness of the Individual” e “The Art of the Soluble”, nos quais “abordou a natureza da ciência e a importância do pensamento científico”.
Infelizmente, aos 72 anos, beijou a face da eternidade em 2 de outubro de 1987.
À época da maior honraria mundial, a justificativa da Academia Sueca para os vencedores do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1960 foi por “realizar trabalhos no sistema imunológico que protege contra os ataques de micro-organismos e rejeita tecido estranho. Parte da imunidade tem uma base hereditária, mas outra parte é adquirida e não está presente no feto”.
Afirmou, ainda, a Academia Sueca: “Depois que Macfarlane Burnet teorizou que a capacidade de distinguir entre o tecido próprio e o tecido externo é adquirida durante o estágio do feto, Peter Medawar transplantou com sucesso o tecido entre fetos de ratos sem rejeição em 1951. Ele podia realizar novos transplantes nos ratos quando se tornavam adultos, algo que não funcionava quando os transplantes não tinham sido realizados durante o estágio de feto. Os resultados tiveram relevância para os transplantes de órgãos, mas o seu legado permanece vivo através de suas contribuições para a imunologia e o entendimento do sistema imunológico”.
Apesar de o Brasil ser reconhecido por jamais ganhar o Prêmio Nobel, Peter Brian Medawar nasceu no país; porém viveu a maior parte da vida na Inglaterra, o que o fez optar pela nacionidade britânica, por certo em função de sua origem materna, mas há um fato instigante que descortina uma enorme injustiça e precisa ser levado em consideração:
Peter estudava no Reino Unido quando, no Brasil, os nascidos em 1915, deveriam se apresentar para o “alistamento militar”.
Porém, para que não precisasse voltar ao Brasil para “servir ao Exército”, o seu pai foi conversar com o padrinho dele, Salgado Filho — o influente político gaúcho Joaquim Pedro Salgado Filho, que foi deputado federal, senador pelo estado do Rio Grande do Sul e ministro do Trabalho (1932-1938) e da Aeronáutica (1941-1945) —, no governo Getúlio Vargas, para tentar obter a “dispensa” do filho junto ao ministro da Guerra e futuro presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, que não aceitou livra-lo da “obrigatoriedade do Serviço Militar”.
Algumas reportagens na imprensa brasileira, veiculadas na época do anúncio do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, para Frank Macfarlane Burnet e Peter Brian Medawar — este último anunciado como “cidadão britânico” — jogaram dúvidas sobre a “perda da nacionalidade brasileira” de um jovem que estudava e vivia em outro país, o que não estava previsto na Constituição de 1934.
Em entrevista à imprensa, alguns familiares de Peter Brian Medawar disseram que ele “renunciou voluntariamente à cidadania brasileira, pois estava estudando em Oxford, na Inglaterra, e não poderia retornar ao Brasil apenas para cumprir as obrigações militares”.
Além de externar o seu sentimento de amor pelo Brasil, ele se considerava um “brasileiro de direito e fato”. No entanto, a “perda compulsória da cidadania o magoou profundamente”, disseram.
E, ao ter a sua cidadania cassada por uma decisão do Exército e confirmada pelo Governo do Brasil, sem amparo legal e muito menos previsto na Constituição — “por morar e estudar em outro país” —, como filho de mãe britânica, ele não teve outra alternativa a não ser se naturalizar como cidadão inglês.
Então, o Brasil é isto aí: quando um brasileiro é indicado ao Prêmio Nobel muitos torcem contra, alguns desdenham da indicação e outros usam a “mão peluda” com o objetivo de desqualificar a sua obra e difamar a sua vida para que o prêmio não seja concedido.
E, pasmem, quando um cidadão nascido no Brasil se converteu em um dos mais importantes cientistas do mundo e ganhou o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, descobriu-se que o Governo do Brasil havia “cassado a sua cidadania”, e, pior, injustamente, sem direito de defesa e amparo legal.
Hoje, como ainda não temos, oficialmente, o reconhecimento do Brasil como um país vencedor do Prêmio Nobel, a Presidência da República, o Ministério das Relações Exteriores, a Câmara dos Deputados e ou o Senado Federal poderiam reparar essa injustiça, devolvendo ao cientista Peter Brian Medawar a nacionalidade brasileira.
Maciel de Aguiar é escritor, autor de mais de 140 livros
























