O aumento no preço de insumos como milho e o farelo de soja tem gerando muitas incertezas para os produtores dos setores avícola e suinícola capixabas, que já estão calculando os prejuízos e revendo seus planejamentos para não sofrerem com o desabastecimento e até pararem com suas atividades, afirmam as Associações de Avicultores e Suinocultores do Espírito Santo (Aves e Ases0.
“Para se ter uma ideia, o preço do milho já está com um percentual 70% mais caro no comparativo com esse mesmo período do ano passado. Além disso, o farelo de soja já ultrapassou os 100% em relação a 2019. Isso vem fazendo com que o produtor tenha um custo de produção muito elevado”, sustenta uma publicação das entidades.
A situação também é percebida em Minas Gerais e Santa Catarina, dois grandes produtores de carnes de aves, suínos e ovos, assim como o Espírito santo e já está refletindo no preço do ovo ao consumidor, que está custando em torno de R$ 6 a dúzia, no Espírito Santo.
No Ceasa, a cotação da dúzia de ovos grandes está em R$ 4,15, ou seja, 23,88% mais cara do que em abril do ano passado, quando o produto custava R$ 3,35.
Situação ainda pior é observada na carne suína. A arroba de porco custava R$ 101,98 em abril do ano passado e, agora, está em R$ 149,62, um aumento de 46,71% em um ano.
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), em nota enviada no início de março à imprensa faz referência aos altos custos de produção enfrentados pela avicultura e suinocultura brasileiras.
A entidade destaca que a saca de 60 kg do milho está cotada atualmente em mais de R$ 85,00, representando 61% de aumento em relação a fevereiro do ano passado. O aumento foi ainda maior para a tonelada de farelo de soja, comercializada hoje a R$ 2.750,00, o que significa um aumento de 113% em relação ao preço praticado 12 meses atrás.
Além da alta do preço das carnes, o ovo, principal alternativa do consumidor, pode vir a faltar no mercado. O alerta, em tom de advertência, é de um dos produtores de Minas Gerais. O Estado possui o terceiro maior plantel de aves do país, atrás apenas do Espírito Santo e Santa Catarina.
De acordo com Cleber Luiz Silva, que é produtor na região de Santo Antônio do Monte, no Centro-Oeste de Minas, a soja e o milho estão voltados neste momento somente para as exportações devido à demanda global e o alto preço do dólar, o que prejudica vários segmentos.
A soja também vem mostrando números de que pode haver escassez, muito por conta dos altos índices de exportações praticados neste ano, o que já vem resultando na necessidade de importação do insumo em alguns Estados, especialmente da região Sul do país. Nessa conta, o produtor também vem sofrendo para comprar o insumo.
Ao mesmo tempo, os produtos que são comercializados não estão acompanhando essa mesma elevação que se apresenta no preço dos insumos. No caso do ovo, por exemplo, que está sendo o maior sacrificado nessa situação, o produtor vem colhendo prejuízos.
O diretor executivo da Aves e Ases, Nélio Hand, ressalta as principais preocupações de ambos os setores com a atual situação. “O que preocupa muito é a questão do risco de desabastecimento que os setores vêm sofrendo, em decorrência das pressões que vêm dos mercados e também das especulações. Os produtores que não tiveram condições de fazer precauções de seus estoques estão encontrando dificuldades para comprar milho, que, por outro lado, não vem sendo comercializado, já que também existe a expectativa de se alcançar melhores pagamentos por parte de quem possui esse insumo em mãos e o fator especulativo que vem contribuindo para esses altos preços”, explicou.

Entidades fazem alertas
Mesmo com o Governo Federal, através de ministra da agricultura, Tereza Cristina, tendo sinalizado de que não haverá problemas com o abastecimento de milho, isso não vem sendo sentido no dia a dia de quem precisa desses insumos.
Desde o início do segundo semestre do ano passado, a Aves e a Ases vêm trabalhando para alertar as autoridades e esteve com a ministra da agricultura, junto com representantes de vários Estados através de reunião promovida com a ABPA, onde foram propostas medidas para viabilizar importação também para Estados que estão distantes dos insumos. A situação também foi reforçada através da bancada capixaba em Brasília que diante da gravidade do assunto foi mobilizada pelas duas entidades estaduais e aplicou esforços junto ao Ministério da Agricultura.
Segundo Nélio, hoje o Espírito Santo é o Estado que tem o custo mais alto em relação aos insumos no país, e, até o momento, não ocorreu nenhuma posição concreta para ao menos amenizar essa situação.
“Há uma grande preocupação com os reflexos de tudo isso, na qual os produtores do setor de postura comercial já estão antecipando descartes antes do período habitual e já existe uma programação de redução do número de alojamento de pintainhas entre 10 e 15%, conforme levantado junto ao setor local. Somente desta forma será possível fazer com o preço final acabe alcançando a margem dos insumos”, detalhou o diretor executivo da Aves e Ases.
Presidente da Aves e também avicultor, Ademar Kerckhoff ressaltou os principais problemas enfrentados pelo setor avícola capixaba. “Estamos vivendo um momento inesperado com a pandemia, que trouxe uma nova realidade, onde os preços das commodities foram valorizados pela alta do dólar e o nosso setor sofreu muito pela elevação dos insumos como o milho e a soja. Além disso, estamos tendo dificuldades para comprar embalagens de caixas de papelão e de outros materiais. Isso tudo, inevitavelmente, vai refletir para o consumidor na hora das compras”, destacou Ademar.

Produtores já temem parar suas atividades
Embora se tenha a perspectiva de um estoque de passagem de 2020 para 2021 com um total de mais de nove milhões de toneladas, os setores de avicultura e suinocultura vêm encontrando desafios para garantir o abastecimento.
Na área de frango de corte, as integradoras já estão replanejando os alojamentos, ou seja, alojando menos, o que pode gerar dificuldades. Além disso, os avicultores independentes também já estão reduzindo seus plantéis.
Representante do Grupo Venturini, Fellipe Venturini, destacou que o consumidor final é quem acabará arcando com essas elevações de preços. “Os reflexos desse aumento no dia a dia da produção são os preços dos produtos mais caros, o prazo de pagamento diminuiu consideravelmente para não ficarmos ‘nas mãos’ de quem detêm os insumos. A situação é muito complicada e precisamos, como alternativa, repassar esses valores para o consumidor final, que, infelizmente, terá que pagar essa conta”, disse Fellipe.
Pelo lado das integradoras, o diretor-superintendente da Proteinorte Alimentos, Elder Marim, enfatiza que a empresa realizou o replanejamento de seus alojamentos desde o início da pandemia. “O replanejamento dos alojamentos iniciou-se por causa da pandemia e, em seguida, pelo aumento dos preços dos produtos agrícolas e também pela dificuldade de suprimento de matérias-primas para o abatedouro, por exemplo, embalagens, materiais de manutenção, dentre outros. A indústria acabou absorvendo todos esses custos e não repassou para os integrados, onde, para estes, o que aumentou foi o espaço de vazio sanitário entre um alojamento e outro”, explicou Elder.
Ele também frisou que o aumento dos insumos foi repentino e relatou incertezas para o primeiro semestre de 2021. “Os custos que mais subiram foram do milho, soja e óleo degomado, porém, o aumento desses insumos foi grande e repentino, o que inviabilizou o repasse para o consumidor. Por essa razão nós não estamos conseguindo vender pelo preço de custo de reposição. Como trabalhamos com estoque de segurança, estamos conseguindo operar sem gerar demissões. A nossa maior preocupação ainda é com o primeiro semestre de 2021, devido a provável falta de poder aquisitivo e incertezas com relação à safra para o próximo ano”, contou o diretor-superintendente da Proteinorte.
Já a avicultora familiar do setor de postura comercial e proprietária da Granja Dom Bosco, Joseméri Gagno Caliman, enfatizou a dificuldade que tem encontrado para comprar milho, que atualmente ela tem adquirido no Tocantins. “Tivemos dificuldades para comprar alguns tipos de insumos e até embalagens. Hoje, estamos comprando milho do Tocantins, muito por causa das dificuldades para encontrar esse insumo”, disse Joseméri. (Weber Andrade com Aves e Ases e Avinews)























