Maria Luiza na porta da UFBA: Sonho está sendo concretizado (Foto: Arquivo pessoal)
Weber Andrade/Sandra Rocha*
Depois da publicação da primeira reportagem com uma jovem estudante de escola pública que atingiu seu objetivo de chegar a um curso de graduação, o site tribunoanorteleste.com.br, foi eleito o site das revelações de talentos na área estudantil de Barra de São Francisco e região.
Nesta quinta-feira, 30, trazemos a história de mais uma menina – onde estão os meninos? – que alcançou seu objetivo sem fazer cursinho para o vestibular e outros cursos fora das salas de aula.
Trata-se da jovem Maria Luiza Souza dos Santos, 18 anos, que acaba de ingressar na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde vai cursar Licenciatura em História. Curiosamente, ela vem de uma localidade próxima de onde estudaram outras duas meninas – Grasiely e Shara Letícia – aprovadas em cursos superiores, o distrito de Itaperuna.
“Eu morava em São João do Itaperuna com minha mãe, Maria das Graças Souza Suprani, tios e avós mas, por volta dos 3 anos, mudamos, minha mãe e eu, para Barra de São Francisco, depois que ela se separou e casou com meu padrasto, Weverton Suprani de Moura”, relata Maria Luiza.
Em Barra de São Francisco, a menina fez o ensino infantil na CMEI Dorico Cipriano, depois foi para a EMEF José Francisco da Fonseca na Vila Landinha, onde cursou os primeiros anos do ensino fundamental, terminou o ensino fundamental na Escola João Bastos e, por fim, fez o ensino médio no Ceemti João XXIII.
A mãe, Maria das Graças de Souza Suprani é comerciária e trabalha em uma loja de material de construção, o pai biológico atualmente é vereador (Leandro Gomes dos Santos, o Leandro Ais) e o padrasto, Weverton Suprani de Moura, no momento está desempregado.
“Sempre tive grande apoio familiar, particularmente da minha mãe, mas gostaria de citar o meu padrasto nessa reportagem porque ele também me ajudou muito.”
Orgulho para a família
Maria Luiza faz um pedido especial à repórter: “Gostaria muito, se possível, que fosse mencionado o fato de que na minha família materna não tem ninguém ainda formado em faculdade. Ano passado meu tio mais velho entrou em uma faculdade de farmácia e eu sou a primeira jovem a entrar, diretamente do ensino médio, a primeira neta da minha avó a fazer uma graduação. Eu queria passar na federal também para ser motivo de orgulho da nossa família. É uma satisfação muito grande para a minha família. Quero ser inspiração para o meu irmão mais novo, o Gabriel, que tem apenas seis anos, eu quero que ele se inspire em mim e siga o seu caminho estudando”.
Sobre a escolha do curso, Maria Luiza conta que escolheu História, definitivamente, no ano passado. “Eu mudei de opinião sobre o curso. Mesmo quando novinha, sempre quis ser professora, meu projeto de vida seria cursar pedagogia, sempre achei lindo e tinha essa paixão. Porém vi depois que a pedagogia não seria adequada ao meu perfil porque é mais para lidar com crianças da educação infantil, crianças menores”, afirma.
E emenda: “Pensei muito em administração, achava que seria uma profissão boa para o meu futuro, mas minha mãe disse que não me via muito nisso. Depois que terminei o ensino médio foi que eu decidi que queria história, estudei muito história pra fazer o Enem e acho que tem muito a ver comigo. A pessoa que quer estudar história, ela tem que ter um perfil com capacidade de fazer análises mais profundas e complexas de diversos temas e eu sou muito engajada com pautas sociais também, uma coisa que faz parte da minha vida. Eu vi as ciências sociais como uma possibilidade mas acabei preferindo história porque em história a pessoa tem que ter uma boa capacidade de interpretação e gostar de livros e todo mundo sabe que eu amo livros, eu adoro, faz parte do meu cotidiano, e escolhi licenciatura exatamente porque quero dar aulas”, define.
Maria Luiza conta que estudou mais história, no ensino médio, embora tenha ficado afastada da escola por causa da pandemia. “Fui muito prejudicada pela pandemia, mas consegui estudar bastante nos últimos anos. Gosto também de matemática, pode parecer um paradoxo, mas eu sempre gostei de ficar resolvendo os problemas. O meu problema era identificar o que tinha que fazer, mas quando tinha uma fórmula, eu conseguia resolver bem e me destacava também”, comenta.
Sobre os professores, Maria Luiza enumera: “Na educação infantil tive a professora Leudimar que é minha madrinha, foi uma pessoa muito especial e tem muito a ver com meu gosto pela leitura. Na educação fundamental tive a Nair Augusta, uma professora muito carinhosa, atenciosa e que marcou muito a minha educação e me ajudou a ter uma visão ainda mais especial sobre a profissão que almejo.”
“No ensino médio tive vários professores maravilhosos, incríveis. Teve o Willian, professor de química e o Gabriel Martins, professor de filosofia, os dois foram meus tutores e foram muito especiais pra mim, em muitos momentos eu desabafei com eles e sempre foram muito atenciosos comigo.”
O que fazer para chegar lá
Não obstante ter conquistado seu sonho sem passar por cursos ou escolar particulares, Maria Luiza tem um conselho para os alunos que queiram uma boa nota para chegar à faculdade: “Se você for da escola pública, o ensino não é o suficiente, tem que estudar em casa, se puder fazer algum curso a mais faça, online mesmo, precisa criar uma rotina de estudos em casa, pois só a escola pública não vai te dar o ensino suficiente”, avalia.
Maria luiza dpá os primeiros passos na educação no CMEI Dorico Cirpiano (Foto: Arquivo pessoal)
Depoimentos
“Tive a sorte de iniciar minha carreira na rede estadual do Espírito Santo no mesmo ano em que a Maria Luiza iniciou o ensino médio, em 2020. Nos três anos que caminhamos juntos fui tanto seu tutor quanto seu professor de química e consegui vê-la crescer como ser humano, ao acompanhá-la enquanto líder de turma, e como aluna, ao desafiá-la no trabalho dos objetos de conhecimento, avaliações e seminários onde ela foi responsável por redigir longos textos e organizar ótimas apresentações de slides.
Ao fim de todo o processo, posso afirmar que ela é mais do que capaz de enfrentar todos os obstáculos que a esperam no ensino superior, se tornando uma competente profissional e, de forma esperançosa, uma excelente professora de História para nossa cidade.”
Willian Carey Alves Rocha, professor de Química
“Tive a oportunidade de ser professor e tutor da Maria Luiza. Estudantes como ela nos enchem de orgulho, porque além de ser um incrível ser humano, demonstrou sempre uma dedicação ímpar e um foco invejável na busca por seu projeto de vida. Nossa escola e eu nos enchemos de orgulho pela aprovação da Maria na UFBA, e acreditamos que ela conseguirá continuar inspirando muitos outros estudantes a trilharem os caminhos que levam à realização dos seus sonhos. Sucesso, Maria! Você é prova de que uma educação integral de qualidade rende muitos frutos de realização.”
Gabriel Martins da Silva, professor de Filosofia
“Maria Luíza,
Imenso orgulho e alegria senti em meu coração ao saber que depois de tantas lutas, medos, inseguranças, ansiedades e “chamadas na religião”, sua persistência e sua dedicação foram maiores pois você quis, você fez a sua parte e Deus foi lá e completou com a d’Ele.
Parece que foi ontem, que eu lhe ensinava as primeiras letrinhas e palavras como sua professora e hoje o mundo abre as portas para minha “pulisca” sonhadora e amante da leitura. Voe alto minha doce Maria, mas lembre-se sempre: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém!” (1 Coríntios 6,12).
Estarei atrás das cortinas do seu palco orando e intercedendo por você e depois na platéia te aplaudindo de pé! Parabéns pelo início de um grande sonho!