*Usiel Carneiro de Souza
Poucas palavras entraram tão rapidamente no vocabulário cotidiano quanto “performance”.
Originalmente associada à execução de uma tarefa, ao desempenho de uma função ou à medida do sucesso alcançado em determinada atividade, ela se tornou muito mais do que um termo técnico.
Hoje, performance parece definir uma condição existencial.
Vivemos em busca de performance. Somos cobrados por ela, avaliados por ela e, muitas vezes, passamos a acreditar que nosso valor depende dela. Precisamos performar no trabalho, nos relacionamentos, nas redes sociais, na aparência física, na espiritualidade e até mesmo na felicidade.
A vida transformou-se em um palco permanente, e nós, em atores que raramente deixam o personagem.
Em certa medida, isso é inevitável. A convivência social exige regras, códigos de conduta e adaptações. Não há nada de errado em adequar comportamentos a diferentes contextos.
O problema surge quando a performance deixa de ser algo que fazemos e passa a ser aquilo que somos. Quando a representação substitui a identidade.
Esse processo costuma começar cedo. Aprendemos quais comportamentos são recompensados e quais são rejeitados. Descobrimos o que agrada aos outros, o que gera aprovação, reconhecimento e pertencimento.
Aos poucos, ajustamos palavras, emoções, opiniões e até sonhos para corresponder às expectativas que nos cercam. Sem perceber, vamos nos afastando de nós mesmos.
Chega então um momento delicado: já não sabemos distinguir entre aquilo que realmente somos e aquilo que aprendemos a representar. Falamos o que parece adequado, sorrimos quando se espera um sorriso, reagimos da forma socialmente aceitável.
Existimos dentro dos limites do que acreditamos ser permitido para sermos aceitos. Vivemos condicionados pelo medo da rejeição.
A consequência é profunda. Quando a performance se torna identidade, perdemos contato com nossa espontaneidade, nossa singularidade e nossa liberdade interior. Continuamos existindo, mas escondidos.
O verdadeiro eu permanece em algum lugar dentro de nós, enquanto a versão apresentada ao mundo assume o controle da vida cotidiana.
Talvez por isso tantas pessoas experimentem um estranho vazio mesmo quando alcançam sucesso, reconhecimento ou aprovação. Afinal, não há elogio capaz de preencher a necessidade humana de ser amado por aquilo que se é.
Quando somos valorizados apenas pela nossa capacidade de corresponder às expectativas, permanecemos inseguros.
Basta uma falha, uma mudança de cenário ou uma crítica para que toda a estrutura construída comece a ruir.
A questão central não é se desempenhamos papéis sociais. Todos desempenhamos. A questão é se ainda conseguimos encontrar, por trás desses papéis, a pessoa que realmente somos.
Quem somos quando não estamos tentando impressionar ninguém?
O que desejamos de verdade?
Nossos sonhos são realmente nossos ou apenas respostas ao desejo de agradar?
Nosso amor-próprio nasce da consciência do nosso valor ou depende constantemente da aprovação alheia?
O grande desafio da vida talvez sempre tenha sido este: tornar-se quem se é. Desenvolver um amor-próprio suficientemente saudável para suportar discordâncias, estabelecer limites e correr o risco de decepcionar algumas expectativas.
Construir relacionamentos baseados em respeito mútuo, onde as pessoas sejam amadas por sua humanidade e não apenas por sua capacidade de corresponder.
Todos precisamos de ambientes em que possamos existir sem máscaras. Lugares onde nossas diferenças não sejam ameaças e onde a sinceridade não seja punida.
Precisamos de relações que sobrevivam às divergências e que acolham nossa vulnerabilidade. Precisamos ser amados não pela perfeição da nossa performance, mas pela verdade da nossa presença.
Vivemos, porém, em uma cultura profundamente performática. E muitos de nós já nos acostumamos tanto a ela que deixamos de perceber a ferida que produz. Uma ferida silenciosa, alimentada pela necessidade constante de provar valor, conquistar aprovação e sustentar personagens. Mais cedo ou mais tarde, essa ferida cobra seu preço.
Por isso, talvez seja necessário iniciar a mais difícil de todas as jornadas: a jornada de volta para si mesmo. Um caminho que exige coragem para enfrentar o medo da rejeição e disposição para fazer perguntas sinceras.
Quem sou eu? O que realmente gosto? O que desejo para minha vida?
As respostas não surgem facilmente. Mas talvez não exista tarefa mais importante. Porque nenhuma performance, por mais bem-sucedida que seja, pode substituir a liberdade de ser quem realmente somos.
Usiel Carneiro de Souza é administrador, teólogo e palestrante























