*João Gualberto Vasconcelos
O escritor Romulo Felipe, autor de obras de ficção histórica de sucesso no mercado editorial, é hoje um dos grandes biógrafos em atuação no Espírito Santo.
Rômulo lançou, nos últimos tempos, obras sobre a vida de políticos e empresários ainda em atividades, como Theodorico de Assis Ferraço, Eval Galazzii, Coronel Gabriel Alckmin e Martinho Demoner, para citar apenas alguns exemplos. São, ao todo, quatorze biografias escritas e publicadas.
São muito importantes esses regastes históricos, mesmo com personagens vivos, porque reúnem informações que poderiam ser esquecidas.
Há grandes nomes da nossa história cujas famílias não cuidaram o seu acervo, como, por exemplo, Muniz Freire, nosso primeiro presidente eleito, em 1892. Nenhum familiar preservou seu acervo, e elementos de sua história, como cartas a outros políticos e familiares ou sua biblioteca, perderam-se na bruma do tempo.
Na contramão dessa tendência, temos o caso do cuidado da estudiosa da cultura de sua região, Ivilisi Soares, psicanalista e filha do grande empreendedor do sul do estado, o Coronel Soares.
O pai de Ivilisi Soares foi não apenas proprietário do trapiche do Porto da Barra do Itapemirim, mas também um dos grandes batalhadores pelo desenvolvimento de seu município.
Lutou por toda a vida para que fossem feitos os investimentos que assegurassem a construção do cais, de modo a dar escala ao seu empreendimento e a trazer o desenvolvimento para Itapemirim. Volto à história do Coronel Soares oportunamente.
Hoje, quero me deter em Henrique Nunes Coutinho, biografado por Romulo Felipe, chamando a atenção, em primeiro lugar, para a seriedade das pesquisas que envolvem registrar, em livro, uma trajetória de vida repleta de realizações, de afetos, mas também de desentendimentos e rupturas.
É preciso método, disciplina e amor ao que se faz para lidar com centenas de documentos, fotos, depoimentos.
Henrique Coutinho herdou seu nome de um antepassado importante na nossa história, seu homônimo que dirigiu o Espírito Santo entre 1904 e 1908 e que foi muito importante por destravar as negociações para a venda da nossa Estrada de Ferro Sul do Espírito Santo para o capital inglês.
Essa operação, de venda da ferrovia, organizou as finanças públicas capixabas e possibilitou o governo empreendedor de seu sucessor, Jerônimo Monteiro.
Coutinho, o biografado por Rômulo Feliope, foi prefeito de Colatina entre 1948 e 1951 e veio de uma família de políticos importantes. Tinha nas veias esse sangue da política.
Entretanto, sua grande obra está no campo da eletrificação. Fazendeiro com terras entre os municípios de Santa Tereza e Colatina, montou uma pequena usina hidroelétrica no Rio Santa Maria, para possibilitar a mecanização do beneficiamento de suas colheitas e das de seus vizinhos.
Em agosto de 1940, teve autorização do governo federal para a ampliação de sua usina, na margem esquerda do mesmo rio, e concluiu suas obras em 1945.
Ocorre que, nessa época, era prefeito o médico Silvio Ávidos – por sua vez filho de Florentino Avidos, que também fora presidente do Estado –, e ele propôs a Henrique Coutinho distribuir a energia excedente na zona urbana Colatina.
Nasceu, assim, a empresa de Luz e Força Santa Maria, que foi transformada em companhia autônoma em 1959. Desde então, detêm a distribuição de energia elétrica para toda a região no entorno da cidade, contribuindo para o progresso extraordinário de toda aquela área. Hoje está presente em 11 municípios do Noroeste do nosso Estado.
Venho afirmando sempre que o Espírito Santo é um Estado empreendedor, que tem entre os fundadores de seu progresso um time de grandes personagens, ousados e com espírito da modernidade que hoje temos.
Seguramente, Romulo Felipe conseguiu descrever para o seu leitor os movimentos pioneiros de Henrique Nunes Coutinho desde que resolveu produzir energia para a sua propriedade, a fim de ganhar escala de produção, e depois transformar a empresa, então criada, em ativo sólido e prestador de serviços, inicialmente para Colatina e, depois, para vários municípios.
A empresa seguramente é um dos pilares do crescimento da região Noroeste do Espírito Santo. Nasceu do sonho de um homem empreendedor, com capacidade para produzir bons resultados para os que também puderam prosperar ao seu redor.
Os mais jovens nem sempre são capazes de compreender a diferença que faz um lugar iluminado, com aparelhos eletrodomésticos, com o conforto dos ambientes ventilados e refrigerados; assim, talvez não possam mensurar a diferença das ações desse homem na região onde viveu sua vida adulta.
Muito também fez a família que possibilitou essa empreitada intelectual, muito bem desenvolvida pelo talentoso Romulo Felipe.
*João Gualberto Vasconcelos é cientista político, professor emérito da Ufes
























