Começaram as semifinais do Campeonato Capixaba se 2026. Estádios deveriam estar lotados, mas… sem Desportiva e Rio Branco, o que se poderia esperar?
No sábado (7), já se viam arquibancada vazias (foto abaixo) no primeiro jogo entre Vilavelhense e Serra, com vitória dos serranos por 2 a 1.
Partida reunindo dois times da Região Metropolitana, mas, inexplicavelmente, realizada a 150km de distância, em Cachoeiro de Itapemirim. Não basta o fato de as duas equipes não terem tradição e nem grandes torcidas.
E, na tarde deste domingo (8), outro vexame. No monumental de Cariacica, o estádio Kleber Andrade, o Porto Vitória mandou o primeiro jogo contra o Vitória, time de melhor campanha, com apenas uma derrota, justamente para a Desportiva (2 a 0).
Ao longo de todo o campeonato, o Porto Vitória, time sem casa, sem torcida e com dono, portanto, sem cheiro de povo, teve média de 588 pagantes em seus jogos.
O Vitória, apesar de ser clube associativo e centenário, tem média de 889 pagantes no estádio Salvador Costa, de acordo com o ranking elaborado pelo site torcidases.com.br. De sua pequena torcida elitizada, se diz: não atravessa ponte para torcer pelo time.
UM POUCO DE HISTÓRIA
O Vitória, apesar de tradicionalíssimo (fundado em 1912, é o clube mais antigo em atividade no Estado), jamais conseguiu ser mais do que um clube de Bento Ferreira, bairro onde construiu seu estádio, mais de 50 anos após sua fundação e depois de Rio Branco e Desportiva.
Em 113 anos, o Vitória foi campeão capixaba em dez edições. A partir a criação da Copa Espírito Santo em 2003, domina a competição com cinco títulos em 24 edições (a de 2020 foi cancelada por causa da pandemia de Covid). Mais recentemente, o clube passa por uma recuperação que se reflete na ampliação de seu, antes modesto, estádio Salvador Costa para 5.300 pessoas para sediar jogos nacionais.
Fundada em 1963 por ferroviários da estatal Companhia Vale do Rio Doce, a Associação Desportiva Ferroviária Vale do Rio Doce já nasceu rica: com o maior e melhor estádio do Espírito Santo e subsistência assegurada por associação e desconto “compulsórios” de mensalidades em folha de pagamento.
Nessa condição, dividiu com o Rio Branco o protagonismo do futebol capixaba e, de certa forma, assumiu o papel principal nas suas três primeiras décadas, quando disputou com destaque o Campeonato Brasileiro, antes das divisões, nas quais despencou a partir da escandolosamente eliminação de 1994 nas semifinais da Série B.
Com investimento em divisões de base, foi o clube que mais revelou talentos no futebol capixaba – projetaram-se, nacionalmente, o goleiro Rogério, o lateral Suemar, os meias Célio e Paulistinha, e os atacantes Batalha, Carlos Hernique e Geovani Silva, que foi um dos grandes meias do futebol brsileiro.
Esse conjunto da obra, fez da Desportiva um clube de grande torcida, que migrou dos ferroviários para os jovens dos anos 60 e 70, que acompanhavam as boas histórias grenás e passaram isso de geração em geração.
Talvez isso tenha impedido (ainda) o fim do clube, com a desastrosa parceria com uma empresa privada e a criação de uma S.A. (1999) pelo último dirigente oriundo dos antigos quadros ferroviários, quando a Vale foi privatizada e emancipou o clube (1996). (Veja reportagem abaixo)
Desde essa malfadada associação com um grupo empresarial, a Desportiva viu-se afundar e não acabou porque
A Desportiva rivaliza com o Rio Branco inclusive em relação a quem tem maior torcida. O Rio Branco foi, durante mais de meio século, soberano em popularidade e títulos estaduais. Fundado em junho de 1913, como resposta ao Vitória das elites, o Rio Branco foi resultado de um movimento de adolescentes da Rua Sete de Setembro, por isso nasceu como Juventude e Vigor.
Em contraste com o Vitória, o fato de ter “nascido das bases” – enquanto o time alvianil, que levava o nome da capital, foi criado por filhos da elite que estudavam no Rio de Janeiro e se inspiraram na “organização” de um clube do bairro das Laranjeiras, o Fluminense.
O Rio Branco perdeu todo o seu patrimônio ao longo da história, envolvido em dívidas trabalhistas impagáveis. O estádio Kleber Andrade foi construído pelo clube e inaugurado em 1986, mas acabou vendido ao Governo do Estado (para não ser tomado em leilão), que o trasnformou em arena multiuso. Em 2024, o Rio Branco tornou-se uma Sociedade Anônima do Futebol e, com isso, vem mantendo o vínculo com sua torcida.
O Rio Branco tem 39 títulos capixabas, 24 deles antes da fundação da Desportiva. O rival conquistou 18 títulos, o último deles em 2016. O único titulo da Desportiva como clube-empresa foi em 2000. Depois da criação da Série B, os dois rivais já foram rebaixados e têm dois títulos cada um nesta que é a Segunda Divisão capixaba. Na Copa Espírito Santo, a Desportiva foi campeã duas vezes e o Rio Branco apenas uma.
Em 2012, a associação voltou a se organizar como Desportiva Ferroviária em meio ao litígio com o “sócio” na Desportiva Capixaba S.A. e conquistou dois títulos – em 2013 e 2016.
TORCIDAS
Desportiva e Rio Branco foram elilminados nas quartas-de-final do Campeonato Capixaba. No meio da semana, estiveram em campo pela Copa do Brasil, como mandantes, no estádio Kleber Andrade (a Desportiva também jogou no monumental por problemas na iluminação de seu estádio).
Na quarta-feira (4), o Rio Branco levou 4.153 torcedores ao seu jogo com o Athetic-MG. Empatou no tempo corrido em 1 a 1 e foi eliminado nos pênaltis.
Na quinta-feira (5), foi a vez da Desportiva entrar em campo contra o Sport Recife, levando 6.433 estádios ao Kleber Andrade. Empatou em 0 a 0 e também foi eliminada nos pênaltis.[
No Campeonato Capixaba, a média grená é de 1.802 torcedores, e a do Rio Branco de 1.616 nos jogos como mandante.
O jogo com maior presença de torcedores foi Desportiva 1 x 1 Rio Branco, no Engenheiro Araripe, pela quinta rodada da fase classificatória, com 4.523 presentes. Os cinco melhores públicos do campeonato, seja como mandantes ou não, tinham ou Rio Branco ou Desportiva em campo.
E o campeonato teve também seus números ridículos: jogos com menos de cinco dezenas de torcedores. Em quatro deles estava em campo o rebaixado Capixaba, do excêntrico presidente Daneil Costa; em dois tinha ou Vilavelhense ou Real Noroeste. Somam-se ao Forte como clubes com dono e em comum têm o fato de, exceto pelo Real Noroeste, usarem CNPJs de clubes associativos tradicionais.

O que têm em comum esses times? Todos são times de aluguel. Sequer têm projeto, como o Porto Vitória, fundado em 2013 e que, bem dirigido empresarialmente, foi feito para dar resultado financeiro como clube-formdo e pode, no futuro, ainda ter alguma popularidade, se continuar evoluindo.
O Porto Vitória é o clube mais bem-estruturado do futebol capixaba. Como associação, essa condição é do Vitória Futebol Clube.
A média de público do Campeonato Capixaba é de 664 torcedores por jogo. A Federação, entretanto, insiste em exigir capacidade mínima de 2.000 pessoas para um time mandar em casa seus jogos.
Se o futebol capixaba não for repensado, há futuro incerto. (José Caldas da Costa, especial para Tribuna Norte-Leste)
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