A jornalista Miriam Leitão, principal comentaria de economia de O Globo, e que teve seu início de carreira, há mais de 50 anos na imprensa capixaba durante o período da ditadura militar, fez uma constatação bem na linha do que abordou esta semana, aqui na Tribuna Norte-Leste, o articulista Wagner Carmo em sua Carta 01 ao Mercado: uma certa desfaçatez do mercado financeiro com relação ao futuro do País, revelada numa pessquisa publicada pelo próprio jornal do Rio de Janeiro.
De acordo com nova pesquisa da série Genial/Quaest, realizada com 105 executivos e economistas de fundos de investimentos com sede em São Paulo e no Rio de Janeiro, há uma reprovação completa ao atual Governo: 90% do grupo reprova a atual gestão federal, contra só 3% que a consideram positiva. Em março, última vez em que a sondagem havia sido feita, eram 64% os que reprovavam a administração petista, e 6% a aprovavam.

Diz a colunista:
“O que a pesquisa Quaest mostra de mais importante é a visão limitada do que seja imprevisibilidade para o mercado financeiro. Os operadores entrevistados mostram, na rejeição à situação atual, temor de não saber como ficará a trajetória da dívida e o déficit público. Mas aceitam a mais imprevisível das ordens, a autoritária. Questionados sobre em quem votariam no cenário em que o presidente Lula e o ex-presidente Jair Bolsonaro fossem candidatos, 80% declararam voto em Bolsonaro, e 12% em Lula. Se Bolsonaro fosse candidato contra o ministro Fernando Haddad, 72% votariam em Bolsonaro e 21% em Haddad.
Não se trata de ser de esquerda ou direita, mas sim pensar no que o ex-presidente representa. O mercado financeiro tem horror da imprevisibilidade porque fica mais difícil “fazer preço”, o problema é que a mais imprevisível das ordens é a autoritária. E como mostram os fatos, as investigações e todos os atos do ex-presidente, ele liderava uma trama para derrubar a democracia. A ditadura é o reino da discricionariedade, a vontade do ditador é que prevalece, não tem como recorrer ao Congresso e ao Judiciário, aliás uma das propostas era matar pelo menos um ministro do Supremo e prender os outros. Numa ambiente assim tudo pode acontecer. O mercado financeiro que deveria analisar friamente a conjuntura econômica para fazer suas alocações de recursos de terceiros, na verdade se move de forma apaixonada.
Quando se olham os indicadores sociais e econômicos e se observa o ambiente de crise que se instaurou no Brasil, a impressão que se tem é que o país vive em duas realidades paralelas. A pobreza foi reduzida ao menor patamar da História, a economia deve crescer 3,5% neste ano, depois de uma alta do PIB de 3,2% no ano passado, a situação é próxima do pleno emprego, a renda cresceu. Há vários indicadores bons, porém, há um mau humor horroroso no mercado financeiro que se expressa na pesquisa da Quaest e também na alta do dólar, na elevação dos juros no mercado futuro, que tem um impacto no curso da dívida do governo.
O mercado já está “precificando”, como eles falam, a Selic em 15%, sem que se tenha um cenário de inflação descontrolada. O IPCA está acima do teto da meta, e isso é preocupante, o Banco Central tem de agir. Mas não é um cenário de inflação, como vivemos na crise de 2020 e 2022, que chegou a dois dígitos, ou em 2015/2016. É uma inflação que está pressionada e que precisa ser levada de volta para a meta. Essas realidades parecem duas paralelas que não se tocam nem no infinito.
O mercado financeiro está comprando e vendendo pessimismo — enquanto na economia real tem muita coisa boa acontecendo, aumento de investimento, o crescimento do PIB, como foi divulgado ontem pelo IBGE.
É claro que o Brasil tem uma uma dívida alta, e o déficit das contas públicas alimenta esse débito. É para isso que o mercado está olhando, porque é ele o administrador dos ativos. E tem mesmo que se preocupar. Mas quando aparece um número como 90% de avaliação negativa de Lula, não tem a ver com uma análise objetiva do desempenho do governo, mas são operadores opinando como eleitores saudosos do ex-presidente, que está inelegível. Quando eles dão zero de credibilidade ao arcabouço fiscal, deixam uma dúvida sobre a falta de críticas às inúmeras vezes que o antigo teto de gastos foi furado por Bolsonaro”. (Da Redação com O Globo e Miriam Leitão)























